Arquivo de abril de 2003

Religião e Utopia

Publicado em 15 de abril de 2003,  por Acauan dos Tupis

Desde que sir Thomas More chamou de Utopia o local da fictícia e perfeita sociedade por ele imaginada, que o termo é utilizado para dar nome aos modelos sociais desenvolvidos por ideologias diversas.

O grande experimento deste tipo, o socialismo marxista, que prometia construir um paraíso comunal, guiado pela luz da História e pela igualdade de um mundo sem classes, deu no que deu.

Neste, como em outros casos, os fracassos são explicados não pelas inconsistências ou ambições exageradas do modelo, mas sim pela desculpa que o modelo — embora perfeito — não fora corretamente implementado.

Esta resistência em admitir que o fracasso da experiência prática possa advir das inconsistências do modelo idealizado é comum na religião, ou pelo menos nas grandes religiões.

Sempre ouvimos cristãos no Ocidente reclamando da falta de “virtudes cristãs” na sociedade, como se a sociedade em que vivem não fosse constituída, por absoluta maioria, justamente de cristãos. Não duvido que no Islã, a julgar pelos relatos, ocorra situação correspondente.

Não vivemos apenas num Ocidente de maioria cristã. Vivemos num Ocidente em que os cristãos são maioria há mais de mil e quinhentos anos, sendo que as diversas Igrejas e instituições religiosas exerceram papel preponderante na formatação das sociedades atuais. Isto vale também para o Islã.

No entanto, toda vez que as mazelas destas sociedades são expostas, ouvem-se religiosos se referirem a elas como se ainda estivéssemos no século I, com os leões esperando ansiosos que o próximo seguidor do Nazareno fosse servido.

Quando levantamos esta questão — do fracasso dos modelos religiosos em erigir sociedades verdadeiramente fraternas, para um cristão ou para um muçulmano, com freqüência recebemos a resposta: É que as pessoas não praticam a verdadeira religião. Se o Cristianismo (ou Islamismo) fosse praticado como Jesus (ou Mohamed) ensinou, tudo seria diferente.

Ou seja, chegamos à exata mesma justificativa dos marxistas: Se o verdadeiro socialismo, como ensinado por Karl Marx, tivesse sido implementado, tudo seria diferente.

O problema é que após mais de quinze séculos, ainda tem gente que prefere esperar pelo dia em que a “verdadeira religião finalmente triunfará” do que aceitar que após tanto tempo, esta mais do que provado que a religião (ou qualquer outra ideologia) é incapaz de formatar o indivíduo, quanto mais a sociedade. Ou seja, as pessoas não são melhores (ou piores) por serem religiosas e as sociedades não se tornam melhores por serem de maioria religiosa.

Os fundamentalistas cristãos poderão refugiar-se em João 18:36 e dizer que o “Reino de Jesus não é deste mundo”. Só que nem João e nem todos os autores de textos bíblicos impedem os fundamentalistas de meterem o bedelho em tudo que “é deste mundo”, visando submetê-lo aos seus próprios preceitos.

No Islã nem esta desculpa é aplicável, uma vez que o conceito de Din (modo de vida islâmico) se aplica a todos os aspectos da vida pessoal e social, incluindo a política e a estrutura do Estado.

Com Din ou sem Din, o Islã é hoje um fiasco social, e louvar as glórias do passado, como costumam fazer os muçulmanos, em nada muda isto, mesmo porque tais louvores em geral são bastante exagerados, resultantes de comparações do Império Árabe em seu apogeu com a Europa da época, que convenhamos, não era lá essas coisas.

Afirmar que as grandes religiões em nada contribuíram para a melhoria das sociedades em que se instalaram seria preconceituoso e inverídico. Entretanto é certo que os resultados obtidos são muito inferiores aos prometidos pelos seus defensores, sendo fato também que o Ocidente somente produziu as primeiras sociedades que combinaram prosperidade e democracia após estabelecerem a completa separação entre Igreja e Estado.

Assim, não considero incorreto alinhar as grandes religiões a outras Utopias, que prometeram mais do que podiam cumprir.

Realidade

Publicado em 06 de abril de 2003,  por Acauan dos Tupis

A realidade que percebemos é verdadeira ou uma ilusão criada por nossos sentidos?

Esta talvez seja a primeira questão que um cético deva levantar. Se tudo que entendemos como real é o que nosso cérebro traduz dos impulsos nervosos emitidos por nossos órgãos sensoriais, então o que chamamos realidade pode não ser nada mais do que uma ilusão produzida por nossos olhos, ouvidos, tato, olfato e paladar.

Esta possibilidade foi ilustrada pela conhecida fábula do sábio chinês, que após um sonho, ficou em dúvida pelo resto da vida, sobre se ele era um homem que sonhou que era uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando que era um homem.

Se definirmos “Realidade” como a soma de tudo que verdadeiramente existe, podemos dizer que todos os seres humanos vivenciam pelo menos dois tipos de realidade:

  • intrínseca: referente aos seus pensamentos, emoções e sensações individuais e;
  • extrínseca: referente às interações de cada indivíduo com as outras pessoas e demais elementos do universo exterior a si mesmo.

Podemos ter razoável certeza sobre nossa realidade intrínseca. Negá-la seria o mesmo que negar nossa própria existência, o que seria absurdo.

E a realidade extrínseca? Como estar certo de que o que chamamos de “real” não está sujeito à mesma dúvida do sábio chinês?

Esta questão pode ser abordada de mais de uma forma. Uma delas é perguntar, se tudo o que percebemos não é a realidade, então é o quê?

A hipótese de que tudo que percebemos do universo exterior a nos mesmos é uma ilusão é pouco sustentável. Uma ilusão é uma falsa realidade criada pela mente ou implantada nela.

Poderia nossa mente criar tudo aquilo que chamamos realidade?

A resposta é muito possivelmente não. Se considerarmos tudo o que vivenciamos num único dia, notaremos uma infinitude de variáveis sendo interpretadas por nossos cérebros. Cores, sons, palavras, idéias, atos, variáveis físicas, emoções…

Estes estímulos não se manifestam isoladamente, mas interagem entre si, escolhendo entre infinitas combinações possíveis, que podem resultar em infinitos resultados, obedecendo a múltiplos padrões.

O ponto é que estamos falando de uma única percepção individual. Todas esta magnitude de variáveis se refere a uma só consciência. Só que nosso mundo é povoado por bilhões de consciência individuais, ou seja, este universo gigantesco de probabilidades interagindo entre si, que se aplicam a um único individuo, tem que ser potencializado por um número de dez algarismos.

Resumindo: A realidade é grande demais para ser criada pela mente.

A conclusão a se tirar sobre a dúvida do sábio chinês é que talvez ele não fosse tão sábio assim. Se prestarmos atenção em nossos sonhos, perceberemos que eles se desenvolvem em um universo muito mais pobre que o universo real. Aqueles que conseguem lembrar o que sonham, experimentem qualquer dia contar a quantidade de pessoas, coisas ou eventos com que se sonhou. Mesmo nos momentos oníricos mais delirantes, perceberemos que as cenas se manifestam num ambiente limitado em detalhes, e mesmo este número reduzido de eventos dificilmente consegue interagir coerentemente entre si.
Tanto isto é certo que ao acordarmos no meio de um sonho, não precisamos mais do que alguns segundos para identificá-lo como tal. Um rápido repasse das lembranças nos leva a alguma evidência inequívoca de que aquilo não era real.

Assim, a realidade não é apenas grande demais para ser criada pela mente. Ela é grande demais também para ser recriada pela mente.

Se a mente não possui tal capacidade, algo externo poderia criar uma ilusão e imputá-la em nos, de forma que a percebêssemos como Realidade?

Este é o tema do filme Matrix, onde imagens virtuais são imputadas diretamente nos circuitos cerebrais dos humanos, que aprisionados numa antiutopia futurista imaginam que suas vidas se desenrolam dentro das rotinas normais. O filme Matrix já foi citado neste fórum pelo participante Menasheh como exemplo da interpretação cabalística da realidade.

Uma questão relevante em Matrix é que o roteiro não nega a existência da Realidade. Tanto é que as ilusões imputadas são reproduções de um mundo real pré-existente.

Apesar disto, persiste a questão: Seria possível que a Realidade que percebemos fosse uma ilusão imputada por uma entidade externa?

Para nos concentrar na análise desta possibilidade, vamos esquecer por enquanto as perguntas quem, como e por que faria tal coisa.

Aparentemente, nossa única ponte para com a realidade são os impulsos sensoriais nervosos, de natureza eletroquímica. Se algo exterior pudesse simular com exatidão tais impulsos, nossos cérebros não teriam como diferenciar a ilusão da Realidade.

A primeira falha nesta hipótese vem do fato que nossa percepção da realidade não é sensorial, mas racional. Os estímulos nervosos nada representariam se nossos cérebros não montassem os quebra-cabeças representados pelos impulsos eletroquímicos, formando os padrões inteligíveis que reconhecemos.

Por si só isto não representaria muita coisa. Os cérebros dos animais também estabelecem padrões a partir de suas entradas sensoriais.

A diferença reside em nossa capacidade de abstração, nossa habilidade mental de identificar o real sem a interferência dos sentidos. Um exemplo disto é a matemática — sabemos que 2 + 2 = 4, e mais, sabemos que 2 + 2 tem que ser igual a 4 sempre. Qualquer percepção sensorial que contrarie esta regra será imediatamente identificada como falsa.

Ou seja, a Realidade tem uma assinatura única, que não pode ser falsificada. E mais, os seres humanos possuem a capacidade de reconhecer esta assinatura, mesmo que com dificuldade e erros de interpretação.

Uma outra brecha no conceito de falsa realidade, no estilo Matrix, é a pesquisa científica. Uma falsa realidade pode enganar nossos sentidos, mas como enganar experimentos? As pistas de que algo não é o que parece terminariam por surgir inevitavelmente, seja uma bactéria que não se comporta como deveria ou uma estrela encontrada onde não poderia estar.

Assim como a matemática, as leis da física não são produto de nossos sentidos e, portanto, não podem ser influenciados por eles. Uma falsa realidade sensorial não produzirá uma realidade cientificamente constatável.

E por último, mas não menos importante, temos a intuição. Nossa capacidade de concluir acertadamente quanto a eventos sobre os quais não temos dados suficientes para análise. Nossos instintos e outros recursos não lógicos nos dão respostas que não sabemos bem de onde vieram.

Para quem achar o parágrafo acima um tanto místico, sugiro que se lembre da última vez em que se sentiu “desconfiado” de alguma coisa. Desconfiança é sempre produto de uma intuição, a percepção de uma possibilidade sobre a qual não há indícios.

Uma realidade absolutamente falsa ofereceria muitas oportunidades para se intuir e desconfiar.

Concluindo, penso que nossa percepção da realidade pode ser limitada e de muitas formas distorcida, mesmo sim, a realidade é grande demais para ficar oculta e somos seres curiosos demais para não encontrá-la.