Seqüência da Série O Ceticismo e os Limites da Dúvida
Uma reação comum a certos proselitistas religiosos, diante de alguma objeção cética à sua pregação é encerrá-la abruptamente acusando seu interlocutor de ser alguém que não acredita em nada, desconsiderando o fato um tanto óbvio de que não acreditar no que outros acreditam é muito diferente de não acreditar em coisa alguma.
É elucidativo sobre o modus pensanti de determinados crentes a facilidade com que extrapolam a convicção esperada e compreensível de que suas crenças sejam as únicas verdadeiras no âmbito em que se aplicam, para a posição megalômana de que suas crenças sejam as únicas possíveis em qualquer âmbito.
O absurdo reside em que é impossível não acreditar em nada.
Acreditar significa dar crédito, aceitar que algo é verdadeiro. “Eu acredito” é sinônimo de “acho que é verdade”. E só.
Quem acredita apenas forma uma opinião a respeito de determinada veracidade, assim, o ato de acreditar é uma interpretação da realidade, sem o que a própria consciência individual não tem como se manifestar.
A idéia de que céticos não são formas de vida consciente soa familiar e aceitável para muitos crentes, para quem as próprias crenças não são interpretações individuais da realidade, mas a realidade mesma. Para estes crentes, a única explicação possível para alguém não acreditar no que eles acreditam é estar perdido em um limbo existencial, de onde eles — os crentes, devem tentar resgatá-lo como parte de sua missão doutrinária.
05 de maio de 2003,
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