Arquivo de outubro de 2003

Jesus está voltando: DEFCON ONE

Publicado em 20 de outubro de 2003,  por Acauan dos Tupis

Se Jesus voltasse hoje, da forma como os fundamentalistas cristãos dizem que será, o religioso presidente dos Estados Unidos da América George W. Bush deveria ser ver diante de um dilema moral:

Decidir se cai de joelhos e ora pelo próprio arrebatamento (teleporte dos fiéis para junto de Cristo) ou ordena DEFCON 1, estado máximo de alerta das forças armadas americanas, incluídos os sistemas de armas nucleares.

Se ele for fiel ao seu juramento de posse, deverá necessariamente optar pela segunda alternativa.

Explico: Cristão ou não, George W. Bush jurou solenemente preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos, o que implica cumprir seus deveres constitucionais de comandante em chefe das forças armadas americanas, reagindo prontamente contra qualquer ameaça ao país ou ao seu povo.

Uma vez que, segundo os fundamentalistas cristãos, Jesus voltará para reinar sobre toda a Terra, o potencial retorno dele representa a maior ameaça possível aos Estados Unidos da América e seu povo, pois o país, sua constituição e demais instituições serão extintos pelo invasor que se autoproclamará rei do mundo.

Além disto, segundo os próprios, somente os fundamentalistas cristãos serão salvos e todos os demais serão lançados ao inferno eterno ou à aniquilação. Como os requisitos de salvação dos fundamentalistas definem como ímpios a esmagadora maioria da população americana (católicos, judeus, religiosos não cristãos, ateus e mesmo protestantes não fundamentalistas) estes seriam sumariamente exterminados ou coisa pior.

Ou seja, Jesus representa um inimigo potencialmente muito mais ameaçador e destrutivo para os Estados Unidos do que foi a extinta União Soviética.

Quando os sistemas de vigilância do NORAD detectarem a tal nuvem cercada de miríades de anjos, no centro da qual Jesus retornará em “glória e majestade”, o único modo de Bush manter-se fiel ao seu juramento é emitindo um ultimato presidencial exigindo que Cristo se mantenha longe do espaço aéreo americano e, diante da inevitável desobediência, acionar os códigos secretos de segurança que determinem o disparo de todos os mísseis nucleares contra o exterminador divino.

Não importa que segundo a crença fundamentalista o atacante celeste tenha poder para transformar as ogivas em algodão doce, um líder nacional não pode entregar passivamente a maioria de seus cidadãos à execução sumária decretada por um tirano estrangeiro, e a constituição dos Estados Unidos não diz em lugar algum que Deus é exceção.

A ausência de Deus

Publicado em 17 de outubro de 2003,  por Acauan dos Tupis

Religiosos em geral e cristãos em particular associam a ausência de Deus ao sofrimento, chegando a utilizarem esta ausência para definir a idéia de inferno.

Para os que defendem este discurso, todos os seres humanos tem necessidade atávica da comunhão com o divino e a felicidade humana sem Deus seria impossível ou, na melhor das hipóteses, incompleta.

Esta questão, aparentemente pessoal e sem importância, é relevante quando se pensa a existência de Deus, que por definição é um Ser Necessário, ou mais do que isto, como diria Santo Anselmo, O Ser Necessário.

A imunidade à ausência de Deus transforma o Ser Necessário em desnecessário, e em sendo desnecessário, deixa de ser Deus. Um Deus que deixa de ser necessário para uma única de suas criaturas já não é absoluto quanto ao atributo de Ser Necessário, e se o atributo não é absoluto, então também não é divino.

Trocando em miúdos e expondo claramente minha tese, se a necessidade da comunhão com Deus é uma necessidade atávica do Homem, a existência de um único ateu que não padeça de sofrimento como conseqüência de seu ateísmo proclamaria a inexistência de Deus, já que o ateu pode conscientemente negar que Deus exista, mas não poderia nunca negar a necessidade atávica da comunhão, que seria fato se Deus existisse.