Em primeiro lugar quero deixar claro que não entendo nada de moda. Longe de mim querer dizer com isto que eu mantenho aquelas posições preconceituosas e retrógradas, que consideram que um homem ser bem instruído nas regras do universo fashion é sinal de, digamos, déficit de masculinidade. Mas quando eu digo que não entendo nada é verdade e quem duvidar vai ter que se haver comigo.
Concluído este pequeno preâmbulo, vamos ao assunto que interessa.
Por motivos outros passei alguns minutos em frente a uma das maiores e mais antigas igrejas pentecostais da cidade, bem na hora da entrada do culto dominical vespertino. Tempo suficiente para conferir o look evangélico da estação, que possivelmente é idêntico ao da estação passada e igual ao da futura.
A rua estava coalhada de crentes se dirigindo à igreja e a primeira coisa que chama a atenção é a quantidade de salvos que levam algum estojo de instrumento musical embaixo do braço. Ou eles têm uma orquestra filarmônica completa dentro do templo ou a congregação é uma fachada para disfarçar algum centro de contrabando especializado.
Junto com os rapazes da banda passou um cara de terno preto, camisa preta e gravata preta carregando um estojo a lá James Cagney. Se ele olhasse para mim e me dissesse alguma coisa em italiano me matava do coração.
Todo mundo me pareceu muito carrancudo. Para quem vive falando da alegria de aceitar Jesus, o encontro tava mais pra velório do que pra pagode.
Mas voltando à moda que, como já disse, é um assunto que não domino.
Os crentes visualmente chamam a atenção por alternarem um padrão e uma diversidade. O padrão óbvio é homens de terno e mulheres de saia ou vestido abaixo do joelho.
Já a diversidade exige o olho atento do observador da religião (e não da moda, que não sei se já disse, é um assunto que não me interessa).
Os ternos crentais têm aquela variação criativa que vai até onde o poliéster alcança (não que eu entenda de tecidos). No meio daquela vitrine móvel da O Crente Elegante, eis que surge um Armani (não que eu entenda de grifes) ou algo parecido. Devia ser o pastor.
Muita meia branca com calça e sapato preto. Funcionava no Michael Jackson, mas Deus devia ter incluído uma nota na Bíblia proibindo esta combinação fora do show biz.
Tinha a turma do terno importado. Direto dos saldos de figurinos do That 70’s Show.
Mas vamos ao prato principal que é o figurino da mulher crente.
Nenhum decote acima da cintura e nenhuma fenda acima do joelho. Mau começo. O interessante é que as crentes parecem encontrar formas alternativas de expressar sensualidade, já que os recursos mais exuberantes são terminantemente proibidos.
Aí vocês perguntam: — Qual é ô Acauan, sensualidade da mulher crente?
E eu respondo, posso não entender de moda (não sei se já disse), mas de mulher eu arrisco a dar uns pitacos.
Sensualidade crente sim, a começar do uso intensivo e ostensivo de um recurso eficientíssimo: Saltos altos. Sou taradão por mulher de salto, quanto mais alto melhor. E salto alto não tem nenhuma outra função que não deixar a mulher mais sensual.
Pois bem, as crentes no geral pairavam pelo menos quinze centímetros acima do solo. Se o objetivo não fosse dar uma levantada onde interessa, elas não estariam fazendo aquele esforço todo para se equilibrar calçada afora. E que não venham com a lorota de que é para agradar Jesus. Ele não tem mais idade para estas coisas.
E tem aqueles cabelões todos, que bem penteados e na ponta de um salto transformavam-se de sinal da tribo em vantagem competitiva sexual.
Tinha as crentonas de vestidão de carpideira, mas as jovenzinhas, muitas bonitinhas e de pernas depiladas saliente-se, se esforçavam para exibir seus atrativos sem ultrapassar os limites.
A maioria delas demonstrava não ter o menor conhecimento de que alguns vestidos se usam apenas à noite e não àquela hora da tarde (não que eu tenha este conhecimento, é claro), mas dava para ver a preocupação em realçar uma cinturinha mais fina aqui ou um busto mais vantajoso ali. Quem sabe até chamar a atenção do pastor de Armani.
E tem as cores.
As velhas de tons cinzentos, as jovens casadas de cores discretas e as jovens solteiras bem coloridinhas. Como é que eu sei? Jovenzinha crente solteira vai à igreja com a Bíblia num braço e o pai em outro, sabe como é, já correram uns boatos quanto ao tal pastor de Armani.
Ah, só para confirmar, eu não sou viado.
14 de março de 2004,
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