A citação ao doublethink, expressão cunhada por George Orwell em seu romance “1984”, é um tanto desgastada, mas algo obrigatória em um Pequeno Manual cujo objetivo é ajudar o leitor a compreender os crentes, dado o uso comum do termo para se aludir a doutrinas cuja aceitação depende da crença simultânea em idéias opostas entre si.
Como visto nos capítulos anteriores, os crentes administram sua crença doutrinária em meio a um emaranhado de contradições:
- Rejeitar o mundo e fazer parte dele;
- Negar o homem natural e saber-se um;
- Confessar-se pecador e almejar-se santo;
- Conflitar-se individualmente e ajustar-se coletivamente.
Há, entre os crentes, quem negue a existência destas contradições apelando a algum tipo de dialética teológica, mas a maioria – que não é versada nem em dialética, nem em teologia – nega as contradições simplesmente suprimindo o conflito de pensamentos delas resultante, uma espécie de sublimação do racional pela fé e em proveito dela.
19 de junho de 2005,
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