Arquivo de agosto de 2005

Capítulo 10 – Novo Nascimento e Vidas Transformadas

Publicado em 27 de agosto de 2005,  por Acauan dos Tupis

Um complexo de mitos, ritos e símbolos cuja análise é particularmente necessária para entender os crentes é o que orbita a doutrina do Novo Nascimento e o alegado poder transformador de vidas dele oriundo.

A origem do dogma está na passagem do Evangelho de João que narra o diálogo entre o fariseu Nicodemos e Jesus, no qual este decreta que quem não nascer de novo não verá o reino de Deus.

Para os católicos romanos o “nascer de novo” é uma alusão ao batismo, por conta da citação “nascer da água” constante do mesmo diálogo. Para os crentes o nascer de novo é a conversão ao cristianismo protestante, elevada por rito a um patamar superior ao de simples opção por determinada crença religiosa em detrimento de outra, passando a ser entendida como símbolo da elevação e regeneração espiritual dos eleitos que por conta das tais passam a fazer parte do clube dos santos com todos os direitos reservados queles que são sal da terra e luz do mundo. Pelo menos, na opinião deles próprios.

O nascer de novo é o mais importante rito de iniciação e passagem dos crentes, já que o reconhecimento congregacional da conversão é, em primeira instância, aquilo que os define e faz com que sejam aceitos e acolhidos como irmãos por sua comunidade.

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O Outro “Outro Mundo” dos Espíritas

Publicado em 21 de agosto de 2005,  por Acauan dos Tupis

Os espíritas oscilam entre este mundo e um outro no qual habitam os desencarnados que guiam os médiuns na escrita de livros de estilo indistinguível ou na execução de procedimentos cirúrgicos não reconhecidos pelos conselhos de medicina.

E tem um terceiro.

Um outro outro mundo, exclusivo dos espíritas e invisível para quem não o é, mas mais próximo e compreensível para os terrenos do que o etéreo entre o nirvana e o umbral, onde karmas se cumprem obedecendo a enredos parecidos com os das novelas mexicanas. Continue lendo “O Outro “Outro Mundo” dos Espíritas”…

Capítulo 9 – Mitos, Ritos e Símbolos III: Símbolos

Publicado em 05 de agosto de 2005,  por Acauan dos Tupis

Símbolos são representações de significados atribuídos ou intuídos que vão além daqueles inerentes s formas que os expressam. Como os símbolos são a base de todas as formas de linguagem e as linguagens são a base de nossos pensamentos, entender os crentes, sua linguagem e como pensam exige o conhecimento e entendimento de seus símbolos.

Existem disciplinas científicas especializadas em estudar os símbolos, como a semiótica. Reiterando o que foi dito no Capítulo 7, não é o objetivo ou está ao alcance do autor aprofundar-se nos complexos desdobramentos técnicos deste assunto, mas apenas destacar e exemplificar a importância dos símbolos para se compreender a cultura e comportamento de um grupo.

Um fundamento comum para todas as vertentes cristãs, sejam a católica romana, ortodoxas, a miríade de denominações crentes ou facções dissidentes destas é o seu símbolo máximo e emblemático – Jesus de Nazaré. Uma característica fundamental do cristianismo é que todos os seus significados são representados por um homem que, na condição de símbolo, extrapolou a condição humana.

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Greene, The Great

Publicado em 04 de agosto de 2005,  por Acauan dos Tupis

Não é fácil para quem não é religioso conhecer o complexo que envolve os sentimentos próprios dos que o são. Para quem tem algum interesse, há pelo menos três caminhos para se aprofundar um pouco no tema: se convertendo (caso a curiosidade seja realmente muito grande), vendo, ouvindo e aprendendo ou lendo Graham Greene.

Greene é o máximo. Certamente meu autor contemporâneo preferido.

Nascido na Inglaterra, em uma família protestante, Henry Graham Greene converteu-se na juventude ao catolicismo após uma adolescência problemática. Estudou em Oxford onde descobriu a metafísica que tece a realidade onde suas histórias se passam.

Discussões sobre religião costumam se dar no âmbito filosófico, teológico ou doutrinário, que abrangem questões intelectuais sobre preceitos e premissas de cada fé. Quando as discussões se dão entre religiosos e céticos, têm-se normalmente um debate retórico, que vez por outro resvala o dialético quando os debatedores são competentes. Nenhum debate intelectual pode esclarecer o interlocutor não crente sobre os sentimentos mais sutis que influenciam a crença religiosa, se o descrente em questão nunca pertenceu ao outro lado.

Para além deste tipo de debate, Greene funciona como uma espécie de Virgílio ao contrário. Assim como o poeta romano guiou Dante pelo seu mundo pagão, representado na Divina Comédia pelo limbo do inferno, o escritor inglês nos coloca dentro do universo moral cristão através dos conflitos íntimos e dúvidas que atormentam seus protagonistas, sempre envolvidos na busca por algum tipo de fé, embora o objetivo da busca seja óbvio para o leitor, não para o personagem.

Não torçam o nariz aqueles que desconhecem seus livros e montaram precipitadamente a idéia de que possam ser romances enfadonhos, com narrativas arrastadas cheias de moralismo religioso.

O leitor menos atento de O Fator Humano, por exemplo, no mínimo encontrará uma excitante história de espionagem, tão boa ou melhor que os clássicos de John Le Carré. Conhecimento para tal não faltava a Carré ou a Greene, já que ambos trabalharam para o mítico MI6, o mesmo serviço de inteligência britânico que Ian Fleming — também veterano da inteligência naval — escolheu para dar a James Bond os dois zeros que traduzem a permissão para matar do personagem.

Ninguém, portanto, pode achar de autor tão bem entrosado em grupo com tais currículos que seus livros sejam chatices carolas.

Mas O Fator Humano é muito mais que uma história de espionagem, que na verdade é apenas o pano de fundo para a apresentação de um conflito de consciência entre a lealdade e a moralidade. O protagonista, agente inglês que toma conhecimento de uma operação secreta de seu governo envolvendo uma abominável — mas nunca explicitada — negociação com o regime de Apartheid da África do Sul, se divide entre dois conceitos de certo e errado. O brilhantismo está na quebra do maniqueísmo, uma situação onde as opções eram trair seu país ou colaborar com uma conspiração sinistra. Qualquer que fosse a escolha, a paz de espírito do personagem estaria perdida para sempre. Sem chance de redenção dentro de seu próprio mundo.

Para amplificar a angustia sentida pelo agente, Greene ressalta o fardo do silêncio imposto sobre ele. Obrigado a tratar a operação como secreta, o protagonista é privado do alívio de discutir com outros seu dilema. Num momento desesperado, procura uma igreja católica — mesmo sendo um descrente — esperando apenas que o padre o ouça e guarde segredo, como mandam as regras do confessionário romano. Seu diálogo dura apenas o tempo suficiente para o sacerdote descobrir que o estranho não seguia nenhuma religião, após o que praticamente o expulsa.

As leituras possíveis para aquela cena notável são muitas e claras. Todas ótimas.

O conflito não maniqueísta é tema central de outros livros, como O Coração da Matéria e Fim de Caso, mas aparece mesmo naqueles com tom de comédia, como O Cônsul Honorário e Nosso Homem em Havana.

A obra sempre lembrada como a visão de Greene sobre a relação entre conflitos interiores e religiosidade é O Poder e a Glória, do qual comprei um exemplar de edição antiga em um sebo há muitos anos e até hoje não tive coragem de tirar o filme plástico protetor.

Mas o meu preferido dentro do assunto em pauta aqui é Monsenhor Quixote, uma pequena obra-prima com que Graham nos brindou na fase final de sua carreira e de sua vida.

Na história, a dupla Dom Quixote de La Mancha e Sancho Pança, de Cervantes, é recriada no singelo mundo de Monsenhor Quixote. Tal qual o Cavaleiro da Triste Figura, que só em uma fantasia de cavaleiro andante de tempos passados conseguia exercitar as virtudes que sua época abandonava, o clérigo milita numa igreja que existe apenas na pureza de seu coração, que não enxerga as políticas que regem a instituição a qual serve. Seu companheiro, o prefeito comunista da cidade, tal como o escudeiro Sancho, é seu contraponto com a realidade. Da interação dos dois, Greene pinta uma bela paisagem sobre a natureza humana.

Greene is really The Great.