Gregos e romanos tinham muitos deuses mas, no início da era cristã, já tendiam ao monoteísmo. Para eles, os vários deuses, deusas e demônios (seus agentes, intermedários entre os deuses e os homens) eram diferentes manifestações de um mesmo deus. Eles acreditavam em que tudo o que acontecia, bom ou mau, era a vontade de Deus e que não cabia ao homens questionar o porquê de coisas ruins acontecerem a pessoas boas, por exemplo. Para eles, o importante era o respeito à pátria, à cidade e à família de cada um e às tradições.
Ficaram chocados, portanto, com o que pregavam os cristãos, como se depreende dos escritos de Celso e Marco Aurélio. Diziam os cristãos que para seguir a Deus era preciso desprezar os deuses, abandonar sua cidade, seu país e detestar sua família. Pelo contrário, os cristãos acreditavam que tais laços, em lugar de divinos, eram obra do demônio para escravizar as pessoas aos antigos costumes.
Os cristãos se diziam monoteístas mas pregavam que a divindade estava dividida em duas partes opostas e rivais. Para os romanos, era uma blasfêmia afirmar que o poder de Deus não era absoluto, mas que tinha um adversário, Satã, que limitava sua capacidade de fazer o bem.
A perseguição romana aos cristãos, embora intermitente, era motivada pela ameaça que eles pareciam representar para a unidade do império, ao rejeitar suas obrigações religiosas e o respeito ao imperador como representante de Deus e da pátria. Para seu escândalo, os cristãos julgavam mais importante sua religião e seu deus que as tradições e a vontade do imperador.
Com o tempo, e com a resistência ao aparente radicalismo dos Evangelhos, a Igreja criou doutrinas que atenuavam mandamentos como “dar tudo o que se tem aos pobres”, “evitar o casamento” ou “abandonar a família”. Entre os textos básicos estão o “Ensinamentos dos doze apóstolos”, atribuído aos “pais apostólicos”, e a “Carta de Barnabé”. O bispo Ireneu escreveu, em 180 d.C., um livro atacando quem se desviasse dessas doutrinas, ou seja, os heréticos.
Alguns desses fundamentalistas se apegavam à versão literal dos evangelhos, e viviam no deserto, asceticamente, em celibato, como Justino, o mártir, ou Orígenes, que, como vários outros, se castrou. Outros iam mais longe e rejeitavam a autoridade da Igreja de Roma. Livros como o “Testemunho da verdade”, o “Livro secreto de João” e a “Realidade dos regentes” afirmam que o deus do Antigo Testamento era na verdade Samael, o chefe dos anjos caídos, e não o deus supremo. Ele teria criado Adão e Eva e, com medo de que eles descobrissem a verdade, os proibiu de comer do fruto da Árvore do Conhecimento. A serpente seria a enviada do verdadeiro deus para abrir-lhes os olhos mas Samael, para impedir que o homem pensasse com clareza e mantê-lo sob seu domínio, o expulsou do Paraíso, o amaldiçoou com a necessidade de trabalhar, a ganância pelo ouro e a luxúria. Assim explicavam eles a barbaridade e a violência do deus do Antigo Testamento.
Mais tarde, Jesus teria vindo para salvar a humanidade deste falso deus. Para tais fundamentalistas, a Igreja de Roma nada mais fazia que perpetuar os erros dos “escribas e fariseus”, da Lei mosaica e da Bíblia hebraica, inspirada por Samael. Tertuliano, contemporâneo de Ireneu, ataca estes radicais com base em que é preciso a todo o custo manter a unidade da igreja e que é errado pensar com a própria cabeça e fazer perguntas. Quando eles parecem fazer sentido, Tertuliano diz que é o Diabo que os torna convincentes ao reinterpretar as Escrituras. Tais radicalismos, entretanto, nunca se tornaram populares, devido às renúncias que demandavam.
Já os gnósticos, liderados por Valentino, tiveram uma influência muito maior, pois não pregavam o rompimento e sim a evolução. Para eles, a doutrina da Igreja era apenas o ponto de partida. Seu objetivo final era encontrar Deus dentro de si e aprender a verdade diretamente dele. Acreditavam que, para o comum dos fiéis, os ensinamentos da Igreja bastavam mas, para eles, que tinham atingido tal “iluminação”, a Igreja deixava de ter importância, embora não negassem a autoridade de padres e bispos.
A Igreja, mais uma vez, os atacou por estarem dividindo os fiéis e por pregar a perversão e a imoralidade, o que se constatou ser falso depois que livros como o “Evangelho da verdade”, o “Evangelho de Tomé” e o “Evangelho de Filipe” foram descobertos em Nag Hammadi e nos permitiram conhecer, depois de quase 2000 anos, sua versão dos fatos. O gnosticismo ressurgiu várias vezes na história da Igreja.
Entre os exemplos mais conhecidos estão Francisco de Assis, Teresa de Ávila e João da Cruz (embora tenham sido denominados “místicos” em sua época).
Fonte: “The origin of Satan”, de Elaine Pagels
Ao que tudo indica se houvera alguma deidade essa realmente não poderia ser o deus bíblico, sua monstruosidade em dirigir os humanos é tão terrível que fica melhor no papel de absoluta maldade, diabo. Já a impotência daquele que deveria ser considerado o verdadeiro deus, simplesmente vem coroar a sua inexistência, pois entidade alguma onipotente poderia ser derrotada.
Para os romanos, era uma blasfêmia afirmar que o poder de Deus não era absoluto, mas que tinha um adversário, Satã, que limitava sua capacidade…
Talvez porque o romanos estivessem acostumados à supremacia política e militar, à rotina de nunca perderem uma guerra, e refletissem isso em suas crenças, nas quais não haveria inimigo capaz de impedi-los (há muito tempo já haviam derrotado os cartagineses, é bom lembrar).
Weiner
É verdade, o deus bíblico é tao terrível que só quem se acostuma com Ele é quem O “conhece” desde criança. (Gostou das maiúsculas?)
Levar uma idéia dessas a um outro povo teria, no mínimo, uma reação de repulsa.
Pessoal: para dar umas risadas.
http://www.theonion.com/content/news/transgendered_sea_anemone
Perce
Não é das maiúsculas que gostei, gostei mesmo foi quem o “conhece” desde criança. A propósito Ghandi de certa feita disse ao pastor Stanley Jones, a Índia jamais assimilará um deus, vingativo, nem a idéia de castigos eternos, nem o pecado original e muito menos a teologia horripilante da redenção pelo sangue de um homem inocente. Tudo certinho, mas, talvez ele não soubesse que cristo era a segunda pessoa da santíssima trindade e muito menos que foi ele, cristo, que criou o inferno eterno.
Pergunto o que você acha de um planejador que coloca a área de diversão e lazer ao lado do esgoto?
Um fortíssimo abraço.
Weiner
O que eu acho? O que você acha de alguém que tem todo poder e obriga seu próprio filho a ser sacrificado, ignorando seu pedido enternecido, deseeperado e sincero de afastar de si aquele cálice?
Perce
É pura encenação, afinal não é um só? Pai, filho e espírito santo = deus.
Pensa melhor! Qual é a melhor diversão do mundo? Entretanto tem gente que não troca um balaio cheio por um.
Weiner
Mas que papo-furado nós dois, quem vê pensa que isso tudo existe de verdade.
Abração.
Boa Spockk!
Quase tive um treco!
Será que esse animal come milho?
Lucas
Isso é de um programa humorístico. Seria demais que um pastor protestasse contra uma anêmona hermafrodita (… mmmm, pensando bem, talvez não seja tão difícil assim).
Mas não deixa de ser uma crítica ao ridículo do radicalismo religioso.
http://ingoldwetrustt.blogspot.com/2008/11/nem-deus-protege-seus-fiis.html
Esses anuncios google no canto esquerdo do site só podem ser provocações, não é possivel, “Conheça a palavra de Deus”, Jesus não sei que nao sei que, A biblia e blah blah blah, blah blah blah,
Piada hein…
Malditos romanos, não sabiam fazer nada direito mesmo, eles deviam é ter acabado com essa erva daninha de uma vez. Por serem relapsos em punir os cristãos, mergulharam a Europa na Idade Média.
Túlio José Dalsasso - SC
São eles que sustentam o site. Quanto ao tipo de anúncio, devem ser selecionados automaticamente de acordo com a temática do site.
Se não fosse automático, ainda assim é possível que os crentes tentassem nos salvar nos atraindo para esses lugares.
Gostaria que fossem eles que sustentassem o site. Na verdade quem sustenta o site é o meu bolso.
Mas tem nada não. Em algum ponto da minha vida, eu irei um chequinho do Google com os pingados gerados pelas bestas que clicam alí. Isso sim vai ser gratificante.
Spockk,
Na Inglaterra vitoriana, cobriam-se pernas de mesa porque eram consideradas indecentes.
a moda vitoriana até hoje encanta algumas pessoas.
João Paulo
Cara, eu não tinha pensado nisso por esse ângulo.
Mas, afinal, política é política.
Túlio José Dalsasso
Pensando só em análise de mercado, não poderiam ter escolhido um público-alvo pior.
Há pouco tempo recebi via e-mail ofertas de medalhas com a imagem da Virgem mais famosa da história, mas não adianta: Ísis já conquistou meu coração.
As propagandas são direcionadas aos crentes que caem de pára-quedas aqui. Todo mundo sabe que quem visita o site com freqüência não clica na publicidade.
O romanismo está descrito de forma muito simplificada.
Gregos e romanos tinhas duas religiões ao mesmo tempo que conviviam harmonicamente: o culto doméstico aos antepassados mortos, e o culto aos deuses da cidade.
Os deuses da cidade são o panteão conhecido e popular que se entende hoje por mitologia clássica greco-romana: Zeus, Atena, Netuno, etc.
São esses os que Holiwood usa para os filmes. Mas o culto a estes deuses só se formou depois que as cidades estavam já estavam estabelecidas. A influência destes deuses na sociedade foi menor do que a da religião mais arcaica do culto aos antepassados.
1) O livro “A cidade antiga”, de Fustel de Goulanges, explica em detalhes que os romanos, assim como os gregos e os indus são povos aparentados, descendentes dos Árias. Sua religião primitiva, que já existia antes que esses povos se organizassem em cidades, era o culto ao antepassados mortos, e tanto na grécia como na índia, tinha as mesmas características.
O culto aos mortos fundava-se na fé de que, após a morte, o espírito/alma, precisava ser alimentado periodicamente com o sacrifício de pequenas porções de comida e bebida sobre o túmulo. Se o espírito recebesse esse sacrifício, ele viveria confortavelmente e feliz, mas se não recebesse, tornar-se-ia um fantasma horrível e vingativo que causaria pragas, morte e todo tipo de infortúnio.
Não era qualquer um que poderia oferecer esse sacrifício a um morto. O morto odiava os estranhos e só aceitaria o sacrifício de um descendente seu, que teria, necessariamente, que ser do sexo masculino. Além disso, o sacrifício precisava ser feito de uma certa forma, sem alterar um só detalhe, e recitando as fórmulas mágicas que, assim como os ritos eram específicas para cada família. Tanto os ritos como as fórmulas eram segredo de família.
Os mortos se tornariam furiosos e desencadeariam sua ira terrível sobre quem desobedecesse essas regras, ou se apenas falhasse ao executar os rituais e as fórmulas.
Consequência lógica, cada família tinha uma religião doméstica, sendo o pai o sumo-sacerdote do culto aos antepassados. O local onde os ancestrais estavam enterrados era sagrado, então a propriedade também tinha um caráter sagrado e só poderia ser herdada por aquele destinado a continuar a oferecer os sacrifícios rituais e pronunciar as fórmulas mágicas: o filho primogênito. Casar-se e fazer sexo para ter no mínimo um descendente masculino era obrigatório. Celibato e abstinência eram puníveis criminalmente. Se mesmo assim não houvesse filho homem, permitia-se a adoção ou outros artifícios.
Os irmãos mais novos desse pai de família, filhos, sobrinhos, agregados e todas as mulheres estava submetidas à autoridade do sumo-sacerdote do culto aos antepassados por toda a vida.
Quando a civilização grega se estabeleceu, essa religião já estava firmemente estabelecida, então o direito grego e romano dessas civilizações foi criado para formalizar essas regras religiosas.
Ninguém tinha permissão de “iniciar” um novo culto aos ancestrais. Somente as famílias que já possuíam uma propriedade com um túmulo ancestral, ritos próprios e fórmulas mágicas para cultuar os antepassados era considerada possuidora de um culto doméstico e só aos seus membros era reconhecidos perante a lei como podendo ter direitos, receber a proteção da lei, e ser proprietário, legislador, senador, etc. As famílias também não podiam ser fracionadas, por isso o número da famílias, entendidas como o número de cultos domésticos, era fixo.
As ligações afetivas entre homens e mulheres, em uniões que não eram abençoadas no lar pela religião do culto aos antepassados simplesmente não era considerada família, nem se reconheciam vínculos de paternidade para os filhos nascidos dessas uniões.
Todos os que não tinham culto doméstico eram da plebe, não existiam perante a lei, não tinham direito, podiam ser morto à vontade pois a lei não lhe protegia a vida nem puniria seu assassínio. No início dessas civilizações, a plebe era quase inexistente, formada pelos membros expulsos das famílias, pelos bastardos e pelos estrangeiros. Mas cresceu continuamente até se tornar parte importante da população e depois a maior parte dela.
A estória da evolução social de Roma é a estória da luta da plebe contra as instituições legais da religião do culto aos antepassados. É uma estória longa e árdua, mas foi vitoriosa. No período em que o cristianismo surgiu, o culto doméstico já havia perdido a maior parte da influência sobre a lei romana. Os plebeus já recebiam direitos, podiam ser proprietários, a herança era partilhada entre todos os irmãos e as famílias podiam ser fracionadas.
Não obstante, o culto aos ancestrais remanescia como um formalismo, e os plebeus continuavam sendo considerados inferiores no aspecto religioso.
Agora, pode-se entender um pouco melhor porque esses escritores cristãos iniciais teriam rejeitado a família com tanta força e considerado-a como obra do diabo. Faz sentido. Afinal, a família da civilização romana era uma instituição religiosa, como se fosse uma seita religiosa particular dentro de cada clã. Sair dessa família religiosa significava repudiar a religião familiar do culto aos ancestrais.
Eu acho que é mais fácil de entender como o cristianismo conseguiu difundir-se tanto no Império Romano conhecendo a religião romana.
Tanto o romanismo como o judaísmo eram exclusivistas e puramente tribais. O romanismo em particular, odiava o estrangeiro e quem estava fora da família. Porém, na altura da sua máxima expansão, o Império Romano era cosmopolita, e sua religião primitiva simplesmente não dava conta de satisfazer todos os seus cidadãos que agora eram, na maioria, a plebe excluída.
O cristianismo aceitava todos, indistintamente, e oferecia uma deidade benévola. É compreensível que tenha sido muito atrativo.
2) Agora, quanto à afirmativa de que os romanos considerariam blasfêmia dizer que o poder de seus deuses não era absoluto, isso está incorreto.
Os romanos sabiam muito bem que o poder dos seus deuses não era absoluto. Basta ver a mitologia clássica romana com mais cuidado:
- Zeus, após rebelar-se com seus irmãos e derrotar Cronos, teve de enfrentar uma guerra contra os Titãs. Uma vez onde estava levando a pior e quase foi derrotado, os deuses se transformaram em animais e fugiram para se esconder. Os deuses venceram, por fim, quando Atena inventou o raio, e Vulcano forjou-os em quantidade e entregou-os a Zeus, que com o raio passou a fulminar os Titãs. Mas nem assim acabou com todos, alguns foram mantidos presos.
- Em alguns aspectos, os deuses eram impotentes. Por exemplo, Zeus, o todo poderoso deus do Olimpo, não conseguiu remover o deus Marco do seu lugar para erguer um templo a si mesmo. Esse deus Marco era o deus que morava nas pedras demarcatórias que demonstravam os limites das propriedades.
Existem muitos outros casos em que os deuses estiveram prestes a ser suplantados por mortais e resolveram matá-los ou castigá-los para não serem humilhados, ou que tiveram de dobrar-se à vontade deles pelo uso de fórmulas mágicas.
Sem dúvida nenhuma, os deuses da mitologia clássica não eram tão onipotentes como a deidade da mitologia judaica, e o “pai” da tríade cristã.
O romanismo nunca precisou inventar um deus maligno. Os deuses romanos já eram um tanto limitados, irritáveis e se enfureciam fácil.
O judaísmo também não tem necessidade do diabo. Basta ler o antigo testamento para saber o que deus judaico é um psicopata sádico e genocida. Não precisa de nenhum esforço imaginá-lo criando desgraças como pestes, gafanhotos, terremotos e inundações.
Mas os cristãos, com sua tríade de deidades totalmente onipotentes e absolutamente boas, precisaram inventar o diabo para explicar o mau, os defeitos e as desgraças do mundo.
Caros colegas e crentes de plantão
Eu passarei este feriado sozinho, fazendo faxina em casa e estudando e, por mim, está muito bom.
Para você que está de saco cheio desse conversa hipócrita sobre o “verdadeiro sentido do natal”, e do aniversário de Jesus, e aproveitando o longo comentário sobre romanismo que escrevi tenho duas palavrinhas.
A primeira: Desculpem pela extensão do comentário sobre romanismo. Eu me empolgei.
A segunda: A festa romana das saturnais era comemorada no final do ano no dia 25 de dezembro, e nela os amigos costumavam trocar presentes entre si, e os senhores serviam aos escravos na ceia pois todos eram iguais naquele dia.
Para facilitar a propagação do cristianismo, os líderes cristãos aproveitavam o costume de celebrar algumas festas romans e apenas substituíram os deuses romanos pelos deuses cristãos. E, quanto a dizer que 25 de dezembro era o aniversário de Jesus, ora, eles não faziam a menor idéia de em qual dia ele teria nascido. Então por que não dizer que foi em 25 de dezembro e facilitar a expansão do cristianismo apropriando-se do costume que já estava enraizado? Foi o que fizeram, e agora você sabe o verdadeiro sentido do natal. E, aproveitando para completar minha maldade, sinto informar que Papai Noel também não existe.
Provavelmente só volto a postar no ano que vem. Então, não me importa no que vocês acreditam, desejo a todos um bom feriadão e um bom fim de ano.