Qualquer filosofia, teoria ou ideologia que se baseia essencialmente na fé, irracionalidade e obediência cega a alegações, propostas e promessas não comprovadas é altamente vulnerável a críticas e ataques. As afirmações de gente que se baseia mais na fé do que na razão, mais na crença do que em provas, mais na obediência do que no livre exame e mais na superstição do que na ciência estarão sempre sujeitas contestação e refutação.
A estratégia básica do Novo Testamento em resposta a estes problemas consiste na solificação e no isolamento. Os adeptos são levados a se tornarem tão firmes em sua fé que nenhuma evidência em contrário será capaz de abalar sua decisão. A atitude que o Novo Testamento procura criar é “Eu não me importo com nenhuma evidência que possa existir que prove que vários fenômenos ou preceitos no Novo Testamento são fraudulentos e que o livro é basicamente uma ferramenta de doutrinação usada por um grupo dominante. Se está na Bíblia, então é verdade”. Depois que este ponto de vista foi gravado na mente, a porta se fecha para qualquer outro diálogo. A razão não é mais necessária, Jesus está no controle.
A solidificação funciona melhor através do isolamento. Os crentes são advertidos a não discutir nem argumentar com críticos e descrentes. Descrentes estão no caminho errado e não se fala mais nisto. A mensagem de Colossenses 02:04 é “Não os ouça” (“Digo-vos isso para que ninguém vos engane com discursos sedutores.”); 1 Timóteo 06:20-21: “Evita as conversas frívolas e mundanas, assim como as contradições de pretensa ciência. Alguns, por segui-las, se transviaram da fé. A graça esteja convosco.”; 2 Timóteo 02:23-24: “Rejeita as discussões tolas e absurdas, visto que geram contendas. Não convém a um servo do Senhor altercar; bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males.”; Tito 03:09-11: “Quanto a questões tolas, genealogias, contendas e disputas relativas lei, foge delas, porque são inúteis e vãs. O homem que assim fomenta divisões, depois de advertido uma primeira e uma segunda vez, evita-o, visto que esse tal é um perverso que, perseverando no seu pecado, se condena a si próprio.”.
Mesmo os debates mais racionais, lógicos, pacíficos e bem fundamentados devem ser evitados porque eles, supostamente, só vão gerar brigas e conflitos. Este tem sido o método tradicionalmente usado por demagogos durante séculos — doutrinar e isolar, isolar e doutrinar. O verdadeiro motivo pelo qual debates devem ser evitados é que os ensinamentos cristãos não resistem análise lógica e os crentes poderiam se deixar influenciar por eles.
É estritamente tabu para os crentes criticar ou testar o que lhes é dito, de acordo com Mateus 04:07 (“Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus”) e Romanos 09:20 (“Mas quem és tu, ó homem, para contestar a Deus? Porventura o vaso de barro diz ao oleiro: ‘Por que me fizeste assim?’”).
Marcos 11:27-33 conta uma história em que perguntam a Jesus, “Com que direito fazes isto? Quem te deu autoridade para fazer essas coisas?”. Jesus retruca que, se eles responderem sua pergunta, ele responderá deles. Mas eles não respondem, com medo da multidão que o segue, portanto Jesus conclui com a frase: “E eu tampouco vos direi, disse Jesus, com que direito faço estas coisas.”. Ou seja, não questione a autoridade de Jesus. Ele não é obrigado a responder. Aliás, neste caso, era melhor para a saúde não questionar…
Testes não são necessários já que, por meio de algum processo misterioso, a alegada verdade do cristianismo será mostrada ao crente. Lucas 07:35 diz, “A sabedoria de Deus, entretanto, mostra-se verdadeira aos que o aceitam” e, em 1 João 02:27, “Enquanto seu Espírito permanecer em vocês, vocês não precisam de que ninguém os ensine. Pois seu Espírito lhes ensina sobre todas as coisas e o que ele ensina é verdadeiro, não falso”.
Quando se trata dos ensinamentos das Escrituras, é virtualmente impossível que um crítico, analista ou observador seja visto como honesto, sincero e bem-intencionado. O Novo Testamento o apresenta como um hipócrita, um enganador cheio de truques que, consciente ou inconscientemente, guia os cristãos desavisados para o inferno por uma estrada florida. Tentar provar o contrário é proibido. Neste particular, mais do que nos outros, o Novo Testamento oferece o máximo em fechamento da mente. Também procura manter os crentes longe do “perigo da verdade” ao pintar como falsos profetas e enganadores todos aqueles que lançam dúvidas sobre a exatidão da Bíblia. Embora não o diga abertamente, o NT dá aos fiéis a impressão de que todo e qualquer crítico é um charlatão tentando enganar os otários.
Podemos ver isto em Mateus 07:15 (“Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores.”); Mateus 24:11 (“Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos.”); Mateus 24:24-26 (“Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão milagres a ponto de seduzir, se isto fosse possível, até mesmo os escolhidos.”); 2 Pedro 02:01 (“Assim como houve entre o povo falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos doutores que introduzirão disfarçadamente seitas perniciosas. Eles, renegando assim o Senhor que os resgatou, atrairão sobre si uma ruína repentina.”); e 1 Timóteo 06:03-04 (“Quem ensina de outra forma e discorda das salutares palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, bem como da doutrina conforme piedade, 4. é um obcecado pelo orgulho, um ignorante, doentio por questões ociosas e contendas de palavras.”).
Quando o acúmulo de fatos, dados e evidências que invalidam a fé cristã se tornam incontestáveis, a técnica definitiva de isolamento é aplicada. Os crentes são convencidos de que possuem uma verdade secreta incompreensível a quem está de fora. Ainda que exista uma montanha de evidências que mostram que seguir Jesus é uma forma masoquista e auto-enganadora de tortura, que só beneficia quem está no comando, os biblicistas são instruídos a ignorar a realidade e ver os críticos como agentes do diabo , irrecuperáveis, incapazes de entender a “verdade” superior. Em resumo, o que o NT diz é “Esqueçam o que diz a realidade, ouçam o que eu digo. Vocês vão acreditar em mim ou nas mentiras que seus olhos lhes mostram?”.
Alguns trechos relevantes: 1 Coríntios 02:06-07 (“Entretanto, o que pregamos entre os perfeitos é uma sabedoria, porém não a sabedoria deste mundo nem a dos grandes deste mundo, que são, aos olhos daquela, desqualificados. Pregamos a sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória.”); 1 Coríntios 02:13-14 (“…e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar.”); 1 Coríntios 01:20-21 (“Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo? Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem.”); 1 Coríntios 01:27 (“O que é estulto no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes”); 1 Coríntios 03:18-20 (“Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se julga sábio maneira deste mundo, faça-se louco para tornar-se sábio, porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois (diz a Escritura) ‘ele apanhará os sábios na sua própria astúcia’. E em outro lugar: ‘O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, e ele sabe que são vãos’.”); e, em 1 Coríntios 04:10, falando dos cristãos acomodados: “Nós, estultos por causa de Cristo; e vós, sábios em Cristo! Nós, fracos; e vós, fortes! Vós, honrados; e nós, desprezados!”.
Mais uma vez, o NT consegue transformar uma derrota vergonhosa em vitória parcial. Dados contraditórios são apresentados como um modo de testar a fé do crente. Quanto mais fora da realidade o cristianismo se torna, maior o teste e maior a recompensa. Ensinar a alguém a “tornar-se um louco de modo a se tornar um sábio” é lavagem cerebral. Se isto não é radicalismo, então o que é? É espantoso a que ponto se chega quando se trata de dominar as massas.
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4 comments
19 de Fevereiro de 2008 at 7:58 am
Natali
Há algo neste universo que justifica as palavras de Carlyle: ‘Nenhuma mentira é eterna", portanto cada um de nós aprovará após a morte. A dimensão terrena enfim, tem seu limite. Descobriremos a realidade mais cedo ou mais tarde. Cada um de nós termina sua estrada um dia. Descobriremos fatalmente toda a verdade - a morte é o fim de toda descussão ehehehehehee
19 de Fevereiro de 2008 at 9:52 am
Tomatificadíssimo da igreja do MEV
Não necessáriamente, nós fasiseus pastafarianos, acreditamos que como punição do todo poderoso MEV aos infiéis, todos vocês que não acreditam na existência do MEV, após passar pelo inferno dos 60 mil deuses dos humanos e outros 17 trilhões de infernos alienígenas, irão simplesmente deixar de existir, enquanto nós será dada a vida eterna no restaurante de massas e molhos do Monstro Espaqhetti Voador, tomatificado seja vosso molho. rAMÉM.
Como diriam os agetes Moden e Scanner, A verdade está lá fora… x}
19 de Fevereiro de 2008 at 10:27 am
Fernando Silva
Natali,
Só se houver outra vida, caso contrário deixaremos de existir e não estaremos mais aqui e nem em lugar nenhum para descobrir alguma coisa
14 de Abril de 2008 at 3:40 pm
Alexandre NT
Ao longo dos anos (e ainda hoje), o homem credita a um deus supremo aquilo que ele não consegue explicar. É muito mais fácil para um "crente" afirmar que "Deus existe e pronto" ou que tal acontecimento "é obra de Deus", do que um "descrente" provar cientificamente que tal ser é fruto da imaginação humana que vem se perpetuando e se adequando ao longo dos tempos.
Eu acredito em mim… pois estou aqui escrevendo…