A ciência precisa destruir a religião

A maioria das pessoas acredita em que o Criador do universo escreveu (ou ditou) um de seus livros. Infelizmente, há muitos livros cuja autoria é considerada divina, e cada um afirma coisas incompatíveis sobre como todos devem viver. Apesar dos esforços ecumênicos de muita gente bem intencionada, estes mandamentos religiosos impossíveis de conciliar ainda causam uma quantidade espantosa de conflitos humanos.

Em resposta a esta situação, muita gente defende algo chamado “tolerância religiosa”. Embora tolerância religiosa seja melhor que guerra religiosa, tolerância também tem problemas. Nosso medo de provocar o ódio dos religiosos nos impede de criticar idéias que hoje em dia são absurdos comprovados e que, cada vez mais, nos causam problemas. Também nos obriga a mentir para nós mesmos – frequentemente e em várias circunstâncias – sobre a compatibilidade entre fé religiosa e racionalidade científica.

Religião e ciência não se somam, ao contrário, praticamente se anulam. Com frequência, o avanço da ciência obriga ao recuo do dogma religioso; a manutenção do dogma religioso sempre implica em danos ao conhecimento científico. Já é tempo de admitirmos uma coisa básica sobre a argumentação: ou a pessoa tem boas razões para acreditar em algo ou não tem. Quando a pessoa tem boas razões, sua crença leva a um crescente entendimento do mundo. Não precisamos fazer distinção entre “ciência popular” e “ciência séria”, ou entre ciência e outras disciplinas baseadas em evidências, como a história. Há boas razões para se crer em que os japoneses bombardearam Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Em consequência, faltam motivos para se crer em que foram os egípcios. Qualquer pessoa sensata admite que seria idiota e grotesco usar a fé para se decidir sobre questões específicas envolvendo fatos históricos, isto é, até que a discussão se volte para as origens de livros como a Bíblia e o Alcorão, para a ressurreição de Jesus, para as conversas de Maomé com o arcanjo Gabriel ou qualquer outra besteira santificada que ainda entulhe o altar da ignorância humana.

A ciência, no sentido mais genérico, abrange todas as teorias razoáveis sobre nós mesmos e o mundo. Se houvesse boas razões para se acreditar em que Jesus nasceu de uma virgem ou que Maomé voou para o céu num cavalo alado, tais crenças necessariamente fariam parte de nossa descrição racional do universo. A fé não passa de uma licença que as pessoas religiosas dão umas s outras para acreditar em coisas contrárias razão. A diferença entre ciência e religião é a diferença entre a predisposição a se analisarem novas evidências e novos argumentos sem envolvimentos emocionais, e uma apaixonada predisposição a não fazê-lo. A diferença não poderia ser mais óbvia, assim como a diferença entre as consequências de uma e outra opção, mas, mesmo entre as pessoas mais instruídas, ela é ignorada.

A religião e a sociedade global e laica que está surgindo vêm se tornando rapidamente incompatíveis. A fé religiosa, ou seja, a fé em que há um deus que se preocupa com o nome pelo qual o chamamos, que um de nossos livros é infalível, que Jesus vai voltar para julgar vivos e mortos, que os mártires islâmicos vão direto para o céu etc., está do lado errado de uma guerra de idéias cada vez mais feroz. A diferença entre ciência e religião é a diferença entre uma sincera simpatia pelos frutos da inteligência humana no século 21 e uma rejeição prematura e dogmática a esta investigação. Eu acredito em que o antagonismo entre razão e fé vai se tornar cada vez mais espalhado e intransigente nos próximos anos. Crenças de tribos primitivas, que viveram há milhares de anos, sobre Deus, alma, pecado, livre arbítrio etc., continuam a impedir pesquisas médicas e distorcer a administração pública. A possibilidade de que os americanos elejam um presidente que leve as profecias bíblicas a sério é real e assustadora. A possibilidade de que um dia tenhamos que enfrentar fundamentalistas islâmicos equipados com armas atômicas ou biológicas é aterrorizante, e aumenta a cada dia. Estamos fazendo muito pouco, no campo intelectual, para impedir essas possibilidades.

Em nome da tolerância religiosa, a maioria dos cientistas se mantêm em silêncio, quando deveriam estar destruindo as horríveis fantasias de eras passadas com os fatos de que dispõem.

Para vencer esta guerra de idéias, cientistas e pessoas racionais terão que encontrar novos modos de falar sobre ética e experiência espiritual. Distinguir entre ciência e religião não é simplesmente nos calarmos sobre nossos conceitos de ética e nossas opiniões sobre estados alterados da mente, e sim uma questão de sermos rigorosos quando discutirmos o assunto. Podemos satisfazer nossas necessidades emocionais sem nos rebaixarmos a aceitar coisas improváveis. Podemos reconhecer a importância e o poder de rituais que nos ajudam a atravessar momentos importantes de nossas vidas, como o nascimento, casamento, morte etc., sem precisar mentir a nós mesmos sobre a natureza da realidade.

Minha esperança é que esta transformação em nosso modo de pensar ocorra medida em que nosso entendimento científico de nós mesmos amadureça. Quando nós tivermos meios confiáveis de fazer os seres humanos mais gentis, menos amedrontados e verdadeiramente encantados por termos surgido no universo, não precisaremos mais de mitos religiosos que só servem para nos dividir. Só então reconheceremos que é obsceno fazer com que nossas crianças acreditem em que são cristãs, judias, islamitas ou hindus. Só então teremos uma chance de curar a mais profunda e mais perigosa fratura em nosso mundo.

Autor: Sam Harris
Tradução: Alenônimo

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6 comments

Excelente artigo.

Mas como é possível a ciência destruir a religião sem ser polemica?

Sim, a perspectiva de que os religiosos assumam o poder é inquietante. Mesmo porque eles se aproveitam da ciência, não são coerentes. Dizem ter fé e se submetem a tratamentos médicos. Pregam a paz, mas investem em armas nucleares.

Dúvida: O que será que levou o geólogo americano Kurt Wise optar pela religião mesmo sabendo dos seus absurdos?

“O sonho do geólogo americano Kurt Wise era ser professor de biologia em alguma universidade de ponta nos Estados Unidos. Sua carreira acadêmica vinha numa rota brilhante. Ele foi aluno do célebre paleontólogo Stephen Jay Gould, um dos gigantes da biologia do século XX, e carregava debaixo do braço diplomas das universidades de Chicago e Harvard. Até que um dia, pressionado pela irresistível tensão entre a ciência e os ensinamentos da Bíblia, Kurt Wise tomou uma atitude radical: pegou uma tesoura e saiu cortando todos os trechos da Bíblia que contrariam as descobertas da ciência. Cortou, cortou e cortou, até que não sobrou quase nada do livro sagrado. “Tive de tomar uma decisão entre a evolução e as Escrituras”, relembra Wise. Era uma coisa ou outra. Ele acabou renunciando ao sonho de ser professor de biologia e aceitando integralmente a palavra de Deus. “Assim, com grande tristeza, lancei ao fogo todos os meus sonhos e as minhas esperanças na ciência.” O caso dramático de Kurt Wise é relatado no livro Deus, um Delírio, do biólogo inglês Richard Dawkins, e coloca uma questão central: é possível conciliar religião e ciência?”

weiner assis gonçalves

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Vanderlei
Um cientista que pega uma tesoura e corta a bíblia, até que não sobrou quase nada, mostra perfeitamente que ele não tem este livro como verdade absoluta, ainda mais quando ele sabe que a terra tem bilhões e anos e não apenas seis mil anos. Certamente, de uma maneira ou de outra foi levado a tomar tal atitude, mesmo com o sacrifício de seus sonhos. De emérito cientista a fundamentalista religioso, existe um ângulo de 180°. Veja “Assim, com grande tristeza, lancei ao fogo todos os meus sonhos e as minhas esperanças na ciência.” Existe algo nestas entrelinhas, sua dedução, fica a cargo de cada um, até quem sabe haja uma revelação mais profunda.

weiner assis gonçalves,

Eu acho que neste caso segue aquele ditado, ” você que ser feliz ou ter razão”?

weiner assis gonçalves

weiner assis gonçalves’s avatar

Assino em baixo Vanderlei. Abraços.