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Verdade e Escolha

Publicado em 02 de novembro de 2008,  por Acauan dos Tupis

Simplificando muito, pode se dizer que os posicionamentos quanto à crença religiosa se definem como escolher a verdade, ser escolhido por ela ou negar a escolha.

Para os escolhidos é verdade porque acreditam. Os que escolhem acreditam porque é verdade. Os que negam o fazem por não existir verdade escolhedora ou verdade escolhida.

Nos escolhidos a verdade se manifesta diretamente na alma sob a forma de Fé. Fé e crença, neste conceito, são entes correlacionados, porém distintos, sendo crença a evidência sensível da verdade manifesta.

Os que escolhem a verdade a discernem espiritual e/ou intelectualmente, distinguindo-a do que não o é. Da verdade discernida deriva a crença.

Quem nega a escolha o faz por ser a verdade um ente abstrato incapaz de se manifestar no indivíduo concreto e/ou por ser impossível distinguir a verdade dentre possibilidades infinitas.

Posicionamentos quanto à crença religiosa se definem conforme se considere verdadeira uma das três colocações acima e falsas, completa ou parcialmente, as outras duas.

Capítulo 13 – Σ σ (A Somatória das Dispersões)

Publicado em 20 de agosto de 2008,  por Acauan dos Tupis

No Capítulo 12 deste Pequeno Manual comentamos que entender um grupo é descobrir sua unidade a partir de sua diversidade, seguindo com a discussão sobre o que torna os crentes difíceis de ser entendidos pelos que não o são.

Tratamos neste do que torna os crentes difíceis de ser entendidos pelos que o são.

Apartados da unidade na Babel de suas dispersões, se confundem na falta da linguagem única que lhes permitiria se compreender entre si como um só povo.

A dispersão é intrínseca ao protestantismo, que surgido da Reforma contra o centralismo teológico e administrativo da Igreja Católica Romana, nunca conseguiu substituir aquele centralismo por outro fator de unidade capaz de equilibrar o potencial dispersor da sola scriptura.

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A Ética Espírita – Parte 1

Publicado em 07 de março de 2008,  por Acauan dos Tupis

A ética espírita é uma hipotética dinâmica cósmica na qual a providência divina, o livre arbítrio espiritual e o tempo interagem na cadeia de eventos da existência de modo a garantir que todos os espíritos criados igualmente simples e ignorantes evoluam até se tornar, todos, espíritos igualmente puros e perfeitos, quando desfrutarão de uma felicidade suprema e eterna.

Nesta dinâmica cósmica, a providência divina estabelece e sustenta a ordem metafísica, as regras do jogo, como a lei do karma — que determina que os espíritos devam passar por várias encarnações para expiar antigos erros e aprender — e a lei do progresso, segundo a qual os espíritos podem evoluir ou estacionar moralmente, mas nunca regredir.

Seguindo seu livre arbítrio, cada espírito submete-se ou não a esta ordem metafísica, às regras do jogo. Os que se submetem progridem mais rápido que os que não e alcançam em menor tempo a felicidade da perfeição.

O propósito final da dinâmica cósmica é dar à existência um sentido de justiça universal, erigida da igualdade e do mérito, conforme todos os espíritos devam se submeter à mesma ordem metafísica para progredir e alcançar a felicidade da perfeição.

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Católicos Praticantes Demais

Publicado em 09 de maio de 2007,  por Acauan dos Tupis

Certa vez escrevi sobre os católicos não-praticantes, concluindo que católico brasileiro tem tanta vocação para a não-prática, que quando tenta praticar algo dá errado. Citei o exemplo da Renovação Carismática Católica, cheia de gente que não praticava sua própria religião e se tornou praticante fervorosa da religião dos outros.

Existem outros católicos que chamam a atenção por de fato o serem, costume que o tempo parece ter tornado fora de moda a ponto de surpreender quando identificado.

Meu grupo favorito, claro, é a Opus Dei.

Esqueçam as bobagens do Dan Brown sobre monges assassinos. A Opus não tem monges. Se tiverem assassinos, espero que nenhum deles leia este texto.

A Opus Dei é prelazia pessoal da Igreja Católica, instituição que reúne sacerdotes e leigos, comandada por um prelado nomeado pelo Papa e subordinado diretamente a ele.

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Quaresma

Publicado em 02 de março de 2007,  por Acauan dos Tupis

Estamos no tempo litúrgico da quaresma.

Quando por quarenta dias os padres celebrantes usam paramentos roxos, os órgãos das igrejas ficam silenciosos e… e… e o que mais mesmo?

Se você também não sabe, não surpreende. Se é católico e não sabe, surpreende menos ainda.

Mas nem sempre foi assim.

Antigamente, quando os católicos eram praticantes, a quaresma era um período que despertava temor reverencial nos fiéis da Santa Madre, não só por seu conteúdo de mau presságio — a contagem regressiva para as cerimônias da Paixão e morte do Cristo, como pelos agregados sincréticos associados àqueles dias.

Meus favoritos eram as receitas de fazer lobisomem, das quais não me lembro de nenhuma. Só sei que um monte de licantropos tinha sua peculiar condição atribuída a algo que fizeram na quaresma e não deviam ter feito ou a algo que não fizeram na quaresma e deviam ter feito.

Ao que tudo indica a quaresma era um período tão baixo astral para o fiel católico que a Igreja teve que inventar um dia de folga para que a depressão não produzisse piores efeitos sobre o rebanho.

Surgiu daí o Domingo Laetare, o quarto da quaresma, quando os órgãos das igrejas soavam, as restrições eram reduzidas e o risco de virar lobisomem diminuía, desde que ninguém abusasse, claro, afinal com estas coisas não se brincavam.

Minha parte preferida da quaresma são os jejuns. É a minha parte preferida porque não sou eu que os faço.

O significado canônico dos quarenta dias como tempo para depuração e elevação espiritual, das quais o jejum seria um instrumento, me traz a idéia da quaresma como um Ramadã católico (ou do Ramadã como uma quaresma muçulmana, depende do que veio primeiro).

Pra quem não lembra, Ramadã é o mês sagrado do Islã, quando os fiéis não comem nada do nascer ao por do sol e cumprem uma série de obrigações e restrições religiosas. Não sei se quem desrespeita as regras do Ramadã vira lobisomem, mas conhecendo os muçulmanos, deve acontecer coisa pior, já que não quereriam ficar atrás dos cristãos no quesito meter medo em quem sai da linha.

Quem traduziu bem o clima da quaresma, em tempos anteriores a estes, quando ninguém liga a mínima, foi o Ivan Lins, em canção de mesmo nome cuja letra dizia:

Acabou toda essa brincadeira
Não há jeito de ser diferente
Como sempre chegou quarta-feira
E a praça não é mais da gente

Andam soltos fantasmas e bruxas
Lobisomem em noites de lua
O saci dança em noites escuras
E ninguém tá seguro nas ruas

A julgar pela estrofe, a quaresma tinha também um jeitão de halloween, mas acho que se alguém propusesse “Tricks or Treats?” virava lobisomem.

Como dito, tudo isto foi em outros tempos. Hoje a maioria dos católicos acredita que a quaresma é um tempo de penitência porque começa com os congestionamentos da volta do feriado de Carnaval e termina com os congestionamentos da partida para o feriado da Semana Santa.

Por falar em penitência, nenhuma outra religião tem melhores práticas neste assunto do que os católicos romanos. Fora os jejuns e aquela turma exagerada que gosta de cilícios e açoites com chapinhas de metal nas pontas. Penitência católica é, ou era, atitudes de privação voluntária, como se abster de carne em certos dias da quaresma, nos quais a alimentação se restringia às bacalhoadas com batatas.

A quaresma termina no Domingo de Ramos, quando começa a Semana Santa dos católicos. Era um dia em que muita gente desgalhava árvores para levar os ramos à Igreja para ser abençoados, o que enchia as ruas com uma movimentação pitoresca. Hoje é possível que alguma ONG ambientalista pentelha saísse protestando em defesa dos pobres vegetais desfolhados.

Pois é, cada época tem os lobisomens que merece.

O Não-Juramento de um Jovem Evangélico

Publicado em 22 de fevereiro de 2007,  por Acauan dos Tupis

Quando jurei, perante minha bandeira, defender a honra, a integridade e as instituições de meu país com o sacrifício da própria vida, apesar de muito jovem tinha plena consciência de que aquele ato implicava, para mim, em um compromisso solene, ao qual estaria vinculado por toda vida.

O significado daquele juramento junto aos meus companheiros variava conforme os valores pessoais de cada um, sendo que os que eu acalentava pessoalmente eram os mesmos que me foram ensinados por meu pai, que os aprendera dos pais dele e estes dos seus, numa seqüência mantida por tantas gerações quantas sabíamos quem éramos.

Muitos anos depois observei o testemunho de um jovem evangélico que declarava, com indisfarçável orgulho, ter ludibriado a exigência legal de prestar o juramento à bandeira para obter o certificado de reservista, simplesmente trocando as palavras “eu juro”, que iniciariam o rito, por “eu não juro”.

Como esperado nos testemunhos evangélicos, a narrativa é inconsistente, dado que o juramento à bandeira prestado pelos incorporados ou dispensados pelo exército brasileiro não contém a palavra “juro” e sim “prometo”.

Deixado de lado este detalhe, fica a questão do porque um jovem religioso cristão sentir tanto orgulho em ludibriar a lei brasileira para obter um documento que lhe garantia as benesses da cidadania, a ponto de vangloriar-se do ato perante seus correligionários de crença.

Não que haja alguma dúvida sobre os motivos doutrinários que indispõem várias facções evangélicas contra qualquer tipo de juramento, dado que se sentem obrigados a obedecer às passagens bíblicas que podem ser interpretadas como restrições ao ato de jurar, como a de Mateus 5:

Mateus 5:34-37

Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.

Não contesto o desinteresse com que muitos jovens, chamados compulsoriamente a prestar um juramento no qual não acreditavam, cumpriam aquela obrigação de modo tão burocrático quanto requisitado por aqueles que carimbariam os papéis que buscavam após satisfazer aos requisitos.

O curioso é ver alguém ostentar uma ludibriada nas regras cívicas como um ato de superioridade moral. Pior, superioridade moral de inspiração divina.
Até entenderia que tal postura tivesse algum significado maior se aquele jovem se dispusesse a abrir mão dos documentos disponibilizados por conta de sua recusa em fazer o juramento para cumprir com suas convicções religiosas.

O problema é que a disposição manifesta dele era de cumprir seus requisitos religiosos, descumprir os requisitos cívicos e usufruir das benesses de cidadania atreladas a estes requisitos.

Assim é fácil ostentar convicções religiosas e superioridade moral.

Talvez no meio que doutrina aquele jovem tal postura seja regra, talvez exceção.

Em minha opinião, como dizia alguém, se queres um monumento, olha em torno.