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	<title>Ateus do Brasil &#187; Ateísmo</title>
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	<description>A ciência não explica tudo. A religião não explica nada.</description>
	<pubDate>Thu, 27 Nov 2008 19:28:02 +0000</pubDate>
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		<title>É preciso ter fé para ser ateu?</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Nov 2008 18:00:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alenônimo</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Como eu gostei bastante do vídeo anterior, comecei a procurar um pouco mais por vídeos do Atheist Experience. Não demorei muito para achar este&#160;daqui:

O vídeo é bem grande, tem 10 minutos de duração, mas vale a pena assistir até o&#160;final.

					
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Como eu gostei bastante do <a title="O melhor participante de todos os tempos!" href="http://ateusdobrasil.com.br/humor/o-melhor-participante-de-todos-os-tempos">vídeo anterior</a>, comecei a procurar um pouco mais por vídeos do <a href="http://www.atheist-experience.com/">Atheist Experience</a>. Não demorei muito para achar este&nbsp;daqui:</p>
<p style="text-align: center;"><object width="425" height="344" data="http://www.youtube.com/v/G1zxolRqRqI&amp;hl=pt-br&amp;fs=1" type="application/x-shockwave-flash"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/G1zxolRqRqI&amp;hl=pt-br&amp;fs=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /></object></p>
<p>O vídeo é bem grande, tem 10 minutos de duração, mas vale a pena assistir até o&nbsp;final.</p>
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		<title>10 mitos — e 10 verdades — sobre o Ateísmo</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Jan 2007 00:06:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alenônimo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>

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		<description><![CDATA[Várias pesquisas indicam que o termo “ateísmo” tornou-se tão estigmatizado nos EUA que ser ateu virou um total impedimento para uma carreira política (de um jeito que sendo negro, muçulmano ou homossexual não é). De acordo com uma pesquisa recente da revista Newsweek, apenas 37% dos americanos votariam num ateu qualificado para o cargo de&#160;presidente.
Ateus [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Várias pesquisas indicam que o termo “ateísmo” tornou-se tão estigmatizado nos <abbr title="Estados Unidos">EUA</abbr> que ser ateu virou um total impedimento para uma carreira política (de um jeito que sendo negro, muçulmano ou homossexual não é). De acordo com uma pesquisa recente da revista <a href="http://newsweek.com/">Newsweek</a>, apenas 37% dos americanos votariam num ateu qualificado para o cargo de&nbsp;presidente.</p>
<p>Ateus geralmente são tidos como intolerantes, imorais, deprimidos, cegos para a beleza da natureza e dogmaticamente fechados para a evidência do sobrenatural.<span id="more-149"></span></p>
<p>Até mesmo <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Locke">John Locke</a>, um dos maiores patricarcas do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Iluminismo">Iluminismo</a>, acreditava que o ateísmo <em>“não deveria ser tolerado”</em> porque, ele disse, <em>“as promessas, os pactos e os juramentos, que são os vínculos da sociedade humana, para um ateu não podem ter segurança ou&nbsp;santidade.”</em></p>
<p>Isso foi há mais de 300 anos. Mas nos Estados Unidos hoje, pouca coisa parece ter mudado. Impressionantes 87% da população americana alega “nunca duvidar” da existência de Deus; menos de 10% se identificam como ateus — e suas reputações parecem estar&nbsp;deteriorando.</p>
<p>Tendo em vista que sabemos que os ateus figuram entre as pessoas mais inteligentes e cientificamente alfabetizadas em qualquer sociedade, é importante derrubarmos os mitos que os previnem de participar mais ativamente do nosso discurso&nbsp;nacional.</p>
<h3>1) Ateus acreditam que a vida não tem&nbsp;sentido.</h3>
<p>Pelo contrário: são os religiosos que se preocupam freqüentemente com a falta de sentido na vida e imaginam que ela só pode ser redimida pela promessa da felicidade eterna além da vida. Ateus tendem a ser bastante seguros quanto o valor da vida. A vida é imbuída de sentido ao ser vivida de modo real e completo. Nossas relações com aqueles que amamos têm sentido agora; não precisam durar para sempre para tê-lo. Ateus tendem a achar que este medo da insignificância é… bem…&nbsp;insignificante.</p>
<h3>2) Ateus são responsáveis pelos maiores crimes da história da&nbsp;humanidade.</h3>
<p>Pessoas de fé geralmente alegam que os crimes de <a href="pt.wikipedia.org/wiki/Adolf_Hitler">Hitler</a>, <a href="pt.wikipedia.org/wiki/Josef_Stalin">Stalin</a>, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mao_Tse-tung">Mao</a> e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pol_Pot">Pol Pot</a> foram produtos inevitáveis da descrença. O problema com o fascismo e o comunismo, entretanto, não é que eles eram críticos demais da religião; o problema é que eles era muito parecidos com religiões. Tais regimes eram dogmáticos ao extremo e geralmente originam cultos a personalidades que são indistinguíveis da adoração religiosa. <a href="pt.wikipedia.org/wiki/Auschwitz-Birkenau">Auschwitz</a>, o <a href="pt.wikipedia.org/wiki/Gulag">gulag</a> e os campos de extermínio não são exemplos do que acontece quando humanos rejeitam os dogmas religiosos; são exemplos de dogmas políticos, raciais e nacionalistas andando   solta. Nâo houve nenhuma sociedade na história humana que tenha sofrido porque seu povo ficou racional&nbsp;demais.</p>
<h3>3) Ateus são&nbsp;dogmáticos.</h3>
<p>Judeus, cristãos e muçulmanos afirmam que suas escrituras eram tão prescientes das necessidades humanas que só poderiam ter sido registradas sob orientação de uma divindade onisciente. Um ateu é simplismente uma pessoa que considerou esta afirmação, leu os livros e descobriu que ela é ridícula. Não é preciso ter fé ou ser dogmático para rejeitar crenças religiosas infundadas. Como disse o historiador Stephen Henry Roberts (1901-71) uma vez: <em>“Afirmo que ambos somos ateus. Apenas acredito num deus a menos que você. Quando você entender por que rejeita todos os outros deuses possíveis, entenderá por que rejeito o&nbsp;seu.”</em></p>
<h3>4) Ateus acham que tudo no universo surgiu por&nbsp;acaso.</h3>
<p>Ninguém sabe como ou porquê o universo surgiu. Aliás, não está inteiramente claro se nós podemos falar coerentemente sobre o “começo” ou “criação” do universo, pois essas idéias invocam o conceito de tempo, e estamos falando sobre o surgimento do próprio&nbsp;espaço-tempo.</p>
<p>A noção de que os ateus acreditam que tudo tenha surgido por acaso é também usada como crítica   teoria da evolução darwiniana. Como Richard Dawkins explica em seu maravilhoso livro, “Deus, um Delírio”, isto representa uma grande falta de entendimento da teoria evolutiva. Apesar de não sabermos precisamente como os processos químicos da Terra jovem originaram a biologia, sabemos que a diversidade e a complexidade que vemos no mundo vivo não é um produto do mero acaso. Evolução é a combinação de mutações aleatórias e da seleção natural. Darwin chegou ao termo “seleção natural” em analogia ao termo “seleção artificial” usadas por criadores de gado. Em ambos os casos, seleção demonstra um efeito altamente não-aleatório no desenvolvimento de quaisquer&nbsp;espécies.</p>
<h3>5) Ateísmo não tem conexão com a&nbsp;ciência.</h3>
<p>Apesar de ser possível ser um cientista e ainda acreditar em Deus — alguns cientistas parecem conseguir isto — não há dúvida alguma de que um envolvimento com o pensamento científico tende a corroer, e não a sustentar, a fé. Tomando a população americana como exemplo: A maioria das pesquisas mostram que cerca de 90% do público geral acredita em um Deus pessoal; entretanto 93% dos membros da <a href="http://www.nasonline.org/">Academia Nacional de Ciências</a> não acreditam. Isto sugere que há poucos modos de pensamento menos apropriados para a fé religiosa do que a&nbsp;ciência.</p>
<h3>6) Ateus são&nbsp;arrogantes.</h3>
<p>Quando os cientistas não sabem alguma coisa — como porque o universo veio a existir ou como a primeira molécula auto-replicante se formou — eles admitem. Na ciência, fingir saber coisas que não se sabe é uma falha muito grave. Mas isso é o sangue vital da religião. Uma das ironias monumentais do discurso religioso pode ser encontrado com freqüência em como as pessoas de fé se vangloriam sobre sua humildade, enquanto alegam saber de fatos sobre cosmologia, química e biologia que nenhum cientista conhece. Quando consideram questões sobre a natureza do cosmos, ateus tendem a buscar suas opiniões na ciência. Isso não é arrogância. É honestidade&nbsp;intelectual.</p>
<h3>7) Ateus são fechados para a experiência&nbsp;espiritual.</h3>
<p>Nada impede um ateu de experimentar o amor, o êxtase, o arrebatamento e o temor; ateus podem valorizar estas experiências e buscá-las regularmente. O que os ateus não tendem a fazer são afirmações injustificadas (e injustificáveis) sobre a natureza da realidade com base em tais experiências. Nâo há dúvida de alguns cristãos mudaram suas vidas para melhor ao ler a Bíblia e rezar para Jesus. O que isso prova? Que certas disciplinas de atenção e códigos de condutapodem ter um efeito profundo na mente humana. Tais experiências provam que Jesus é o único salvador da humanidade? Nem mesmo remotamente — porque hindús, budistas, muçulmanos e até mesmo ateus vivenciam experiências similares&nbsp;regularmente.</p>
<p>Nâo há, na verdade, um único cristão na Terra que possa estar certo de que Jesus sequer usava uma barba, muito menos de que ele nasceu de uma virgem ou ressuscitou dos mortos. Este não é o tipo de alegação que experiências espirituais possam&nbsp;provar.</p>
<h3> <img src='http://ateusdobrasil.com.br/wp-includes/images/smilies/icon_cool.gif' alt='8)' class='wp-smiley' /> Ateus acreditam que não há nada além da vida e do conhecimento&nbsp;humano.</h3>
<p>Ateus são livres para admitir os limites do conhecimento humano de uma maneira que nem os religiosos podem. É óbvio que nós não entendemos completamente o universo; mas é ainda mais óbvio que nem a Bíblia e nem o Corão demonstram o melhor conhecimento dele. Nós não sabemos se há vida complexa em algum outro lugar do cosmos, mas pode haver. E se há, tais seres podem ter desenvolvidos um conhecimento das leis naturais que vastamente excedem o nosso. Ateus podem livremente imaginar tais possibilidades. Eles também podem admitir que se extraterrestres brilhantes existirem, o conteúdo da Bíblia e do Corão lhes serão menos impressionante para eles do que são para os humanos&nbsp;ateus.</p>
<p>Do ponto de vista ateu, as religiões do mundo trivializam completamente a real beleza e imensidão do universo. Não é preciso aceitar nada com base em provas insuficientes para fazer tal&nbsp;observação.</p>
<h3>9) Ateus ignoram o fato de que as religiões são extremamente benéficas para a&nbsp;sociedade.</h3>
<p>Aqueles que enfatizam os bons efeitos da religião nunca parecem perceber que tais efeitos falham em demonstrar a verdade de qualquer doutrina religiosa. É por isso que temos termos como <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Wishful_thinking">“wishful thinking”</a> e “auto-enganação.” Há uma profunda diferença entre uma ilusão consoladora e a&nbsp;verdade.</p>
<p>De qualquer maneira, os bons efeitos da religião podem ser certamente questionados. Na maioria das vezes, parece que as religiões dão péssimos motivos para se agir bem, quando temos bons motivos atualmente disponíveis. Pergunte a sí mesmo: o que é mais moral? Ajudar os pobres por se preocupar com seus sofrimentos, ou ajudá-los porque você acha que o criador do universo quer que você o faça e o recompensará por fazê-lo ou o punirá por não&nbsp;fazê-lo?</p>
<h3>10) Ateísmo não fornece nenhuma base para a&nbsp;moralidade.</h3>
<p>Se uma pessoa ainda não entendeu que a crueldade é errada, não descobrirá isso lendo a Bíblia ou o Corão — já que esses livros transbordam de celebrações da crueldade, tanto humana quanto divina. Não tiramos nossa moralidade da religião. Decidimos o que é bom recorrendo a intuições morais que são (a certo ponto) embutidas em nós e refinadas por milhares de anos de reflexão sobre as causas e possibilidades da felicidade&nbsp;humana.</p>
<p>Nós fizemos um progresso moral considerável ao longo dos anos, e não fizemos esse progresso lendo a Bíblia ou o Corão mais de perto. Ambos os livros aceitam a prática de escravidão — e ainda assim seres humanos civilizados agora reconhecem que escravidão é uma abominação. Tudo o que há de bom nas escrituras — como a regra de ouro por exemplo — podem ser apreciadas por seu valor ético, sem a crença de que ela nos tenha sido passada pelo criador do&nbsp;universo.</p>
<div class="textinfo"><strong>Autor:</strong> Sam Harris<br />
<strong>Tradução:</strong> <a href="http://alenonimo.com.br/">Alenônimo</a><br />
<strong>Original:</strong> <a href="http://www.samharris.org/site/full_text/10-myths-and-10-truths-about-atheism1/">10 myths — and 10 Truths — About Atheism</a></div>
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		<title>Ateísmo Positivo</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jan 2007 23:27:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Silva</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma religião afirma coisas. O ateísmo, em geral, nega coisas. Poderíamos dizer que religiões são positivas e o ateísmo é negativo. Ele não se define por valores próprios mas pela negação dos valores das religiões. Para que o ateísmo se torne positivo (ou afirmativo) é preciso mostrar que há vantagens em não se ter um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma religião afirma coisas. O ateísmo, em geral, nega coisas. Poderíamos dizer que religiões são positivas e o ateísmo é negativo. Ele não se define por valores próprios mas pela negação dos valores das religiões. Para que o ateísmo se torne positivo (ou afirmativo) é preciso mostrar que há vantagens em não se ter um deus e uma crença religiosa. De modo geral, a escolha certa é aquela que nos faz feliz ou, pelo menos, nos ajuda a enfrentar a vida. Uma religião pode não ter nenhuma base lógica mas adotá-la se justifica se seus efeitos em nossa vida são positivos. Religiões nos trazem esperança, nos convencem de que há justiça no universo. Seremos um dia recompensados pelo bem que fizermos e o mal será punido. A morte não é mais o fim, apenas a passagem para uma vida melhor.<span id="more-7"></span></p>
<p>Por outro lado, religiões nos trazem o medo da punição, a culpa por termos feito ou deixado de fazer alguma coisa que, na verdade, não prejudica nem beneficia ninguém. Elas nos levam a nos humilharmos e nos autodesvalorizarmos diante de Deus. Exigem que paguemos por supostos pecados com penitências que em nada enriquecem a comunidade ou o próprio indivíduo. Geram intolerância e rejeição dos que têm outra fé, condenam as atitudes nos outros só porque contrariam o que está no “livro sagrado” etc. Até que ponto é preciso se ater ao que está escrito sem se tornar um fundamentalista? A doutrina é confusa e há muitos modos de interpretá-la. É louvável e meritório ser virtuoso apenas por medo do inferno? Qual religião é a verdadeira, entre tantas? A fé nos leva a agir sem pensar, a seguir dogmas sem discutir sua validade. Precisamos da razão e da dúvida constante para limitar nossos erros, para questionarmos constantemente nossas&nbsp;decisões.</p>
<p>Ateus não seguem dogmas. Procuram pensar com a própria cabeça e fazer o que lhes parece certo, porque é certo e não porque “está escrito”, nem porque esperam uma recompensa em outra vida ou têm medo do inferno. Embora tenham defeitos como todo ser humano, estão livres para ser mais tolerantes em relação ao que os outros pensam, porque acham que opinião própria é o direito de cada um. Eles não têm uma religião que lhes diga, a priori e sem justificativas, o que aceitar ou não. Não têm nenhum motivo, além de possíveis razões pessoais, para discriminar mulheres ou homossexuais. Podem se dedicar mais a melhorar este mundo, o único que eles conhecem, em lugar de apenas esperar pela hora de ir para o céu, sem o conformismo de aceitar que “as coisas são assim mesmo” ou “é a vontade de Deus”. Não desperdiçam a vida em orações improdutivas fechados em um convento. Um ateu não se vê como um joguete na luta entre Deus e o Diabo pela sua alma; ele é o único responsável pelos seus atos. Ele tem toda a culpa pelos seus erros e todo o mérito pelos seus&nbsp;acertos.</p>
<p>Religiões oferecem respostas a todas as dúvidas e regras de conduta para qualquer ocasião. Ateus têm que pensar com a própria cabeça e tirar suas próprias conclusões, o que os ajuda a refletir melhor e mais profundamente antes de decidir. Respostas simplistas levam a mentes simplistas mas, é claro, muitos preferem a segurança de um dogma   incerteza de uma busca por respostas. É por isto que não se deve tentar ”desconverter” as pessoas. Quando e se elas estiverem prontas, irão procurar respostas fora de sua&nbsp;religião.</p>
<p>Pessoas religiosas que preferem ignorar os mandamentos de seus “livros sagrados” que lhes parecem excessivos ou cruéis estão agindo como ateus, pensando com sua própria cabeça e seguindo sua razão, embora muitas vezes nem se dêem conta&nbsp;disto.</p>
<p>Ateus devem se policiar, entretanto, para não repetir os erros das religiões. Devem respeitar as escolhas dos crentes, por mais obtusas que lhes pareçam. Quando instados a defender sua posição, destacar os aspectos positivos do ateísmo, como a liberdade de escolha e a racionalidade, evitando atacar os aspectos negativos desta ou daquela religião ou duvidar da inteligência do&nbsp;interlocutor.</p>
<p>Sim, é possível ser um ateu militante. Pode até ser necessário, como forma de defender sua liberdade de expressão num mundo ameaçado pelo fundamentalismo. Mas é preciso levar em conta que uma postura agressiva só reforçará os estereótipos do “ateu revoltado e perverso”, do “ateu sem moral e sem limites”. Contra a fé, a razão nem sempre faz efeito. Comecemos confundindo os crentes, sendo o oposto daquilo que eles esperam de nós. Sejamos honestos, prestativos e respeitadores das&nbsp;leis.</p>
<p>Aos poucos, e com cuidado para evitar a rejeição, procuremos despertar nos religiosos a consciência de que a “verdade” deles não é a única. Que é possível ser feliz e decente sem um deus. Que a crença em deuses não fez da humanidade um lugar melhor, talvez muito pelo&nbsp;contrário.</p>
<p>Não é possível desconverter uma pessoa de fora para dentro, mas podemos torná-la mais tolerante. Fazê-la entender que há outros modos de pensar igualmente aceitáveis. Que a crença delas não é uma escolha óbvia e que ninguém se torna um pervertido, condenado ao inferno, por não adotá-la. Fazê-la entender que não é possível “rejeitar” um deus em que não se&nbsp;acredita.</p>
<div class="textinfo"><strong>Autor:</strong> <a href="http://fernandosilva.multiply.com/">Fernando Silva</a><br />
inspirado em Paul O&#8217;Brien: <q>Gentle Godlessness</q></div>
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		<title>Como debater com crentes?</title>
		<link>http://ateusdobrasil.com.br/artigos/ateismo/como-debater-com-crentes/</link>
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		<pubDate>Thu, 11 Jan 2007 23:23:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Silva</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>

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		<description><![CDATA[Este texto lhe trará boas dicas de como debater com pessoas religiosas.
O que fazer quando um teísta que não conhecemos nos enviar um&#160;email?

Responda&#160;sempre.
Se a mensagem for agressiva ou indecente, informe isto de forma resumida mas educada, e também que você não está interessado em conversar com uma pessoa tão grosseira ou imoral, senão você o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este texto lhe trará boas dicas de como debater com pessoas religiosas.<span id="more-6"></span></p>
<h3>O que fazer quando um teísta que não conhecemos nos enviar um&nbsp;email?</h3>
<ol>
<li>Responda&nbsp;sempre.</li>
<li>Se a mensagem for agressiva ou indecente, informe isto de forma resumida mas educada, e também que você não está interessado em conversar com uma pessoa tão grosseira ou imoral, senão você o denunciará ao provedor&nbsp;dele.</li>
<li>Se a mensagem for educada mas não fizer perguntas (ou seja, traz apenas afirmações, avisos, orações etc.), informe sucintamente e de forma educada porque você discorda ou diga que você já está satisfeito de ser o que é. Agradeça e encerre a&nbsp;conversa.</li>
<li>Se a mensagem for educada e também fizer uma pergunta, responda. Sua resposta deve ser sempre educada e sempre sem se desviar do assunto. Se houver várias perguntas, talvez o melhor a fazer é responder   que lhe pareça mais importante.Não se esqueça de reler sua resposta antes de enviá-la, tendo em mente que você está representando a todos os ateus e livre-pensadores.
<p>Ao reler, talvez você note que está sendo muito parcial, desonesto, grosseiro ou se julgando superior, ou com certezas demais (não se esqueça de que é sempre bom deixar um espaço para as dúvidas), ou qualquer outra coisa que transmita uma imagem negativa de nossa comunidade ou seja injusta para com outros livre-pensadores que discordam de nós. Reescreva o que for&nbsp;preciso.</li>
<li>Se você não tem tempo para responder, informe a ele. Sugira sites ou fóruns onde ele possa encontrar respostas e talvez gente que tenha tempo para&nbsp;conversar.</li>
</ol>
<h3>Por que não simplesmente&nbsp;ignorá-los?</h3>
<p>Eu pensava assim, também, até que comecei a entender melhor as outras pessoas. Você tem que ver a coisa como uma diferença psicológica, não como grosseria. Eu não vejo a “intromissão” deles como mal educada, mas como curiosidade ou uma busca de respostas,  s vezes desesperada. Afinal de contas, se eu estivesse muito preocupado com um assunto ou muito curioso, e não tivesse outra opção, eu faria a mesma&nbsp;coisa.</p>
<p>É claro que eu conheço opções melhores, mas é de se esperar que muitos cristãos não estejam habituados a procurar respostas por si mesmos - se estivessem, muitos deles talvez não fossem mais cristãos. Se você não tiver tempo, mesmo assim mande uma resposta, informando educadamente que está sem tempo e indicando outras fontes de consulta na Internet, mas não seja rude. Isto só piora a imagem negativa que eles têm dos ateus e confirma o que eles já esperavam, causando ainda mais estrago. E você provavelmente não se sentirá bem por fazer isto com&nbsp;eles.</p>
<p>Podemos fazer muito para criar uma imagem positiva para os ateus, e isto começa quando melhoramos, cada um, a nossa própria imagem. É por isto que devemos, sempre, responder. Não responder permite que eles pensem o que quiserem. Não os estimulamos a pensar diferente. E, se estimularmos muitos deles a pensar diferente, mudanças significativas podem ocorrer. Eu sei que é possível, já vi acontecer. Cada um de nós é apenas um detalhe de um quadro maior, mas o quadro só vai se tornar mais positivo se cada um de nós fizer sua&nbsp;parte.</p>
<h3>Mas nós não invadimos a privacidade dos outros para ajudá-los a “enxergar a&nbsp;verdade”!</h3>
<p>Não, mas isto não importa. Nós podemos pensar que somos melhores que eles em aspectos como educação, moralidade e bom senso (e  s vezes até em bem estar espiritual), mas não precisamos ser arrogantes ou nos julgarmos superiores. Também não devemos cometer o erro que a comunidade científica lamenta até hoje: achar que se os ignorarmos, já que eles “não merecem” uma resposta, eles irão embora. O que ocorre é o oposto. O criacionismo científico conseguiu tantos seguidores justamente porque os cientistas não se “dignaram” a debater com eles, ou seja, deixaram que eles vencessem por WO. Não cometa o mesmo&nbsp;erro.</p>
<p>Tente usar psicologia: conforme eles mesmos dizem, eles talvez estejam “em busca da verdade”, em de serem “crentes”, mesmo se não é esta a primeira impressão que temos. Ou talvez, no fundo, tenham dúvidas, mas não admitem isto nem para eles mesmos e saem por aí proclamando certezas. Ou, quem sabe, ainda não tenham dúvidas, mas se, ao contrário do que eles esperavam, nossas respostas não forem agressivas nem os ignorarmos covardemente, eles poderão ficar com uma idéia diferente de nós, uma impressão positiva que fará diferença no futuro. Não conseguiremos fazer com que mudem de idéia a nosso respeito se formos grosseiros, se os ignorarmos ou se os&nbsp;agredirmos.</p>
<p>Pelo contrário, temos que ser mais educados que eles - e pessoas educadas sempre respondem, mesmo que só para informar, educadamente, que não têm tempo para&nbsp;conversar.</p>
<h3>Mas isto não vai servir para&nbsp;encorajá-los?</h3>
<p>Ótimo! Quanto mais cristãos começarem a conversar com ateus, melhor o mundo vai ficar. Para cada cem deles que começam a engrossar e não levam a nada, obrigando-nos a terminar a conversa, um vai mudar de ponto de vista. Acredite, isto tem um grande valor - não só para nós como também para eles. Já ouvi isto várias vezes de gente que acabou adotando o ateísmo e de cristãos que permaneceram cristãos mas deixaram de detestar os&nbsp;ateus.</p>
<p>Procure responder com honestidade e genuíno interesse, não raiva e desprezo, a cada pergunta que lhe&nbsp;enviarem.</p>
<h3>Adendo: debatendo&nbsp;online</h3>
<p>Muitos livre-pensadores debatem em fóruns na Internet e acabam encontrando cristãos que defendem sua fé cegamente e se ofendem com qualquer coisa. Não é o caso de abandonar o fórum por causa deles, já que é um lugar público e destinado justamente ao debate de assuntos polêmicos. O que fazer, então? Muitos livre-pensadores não gostam de ofender aos outros e se perguntam até onde podem ir com essas pessoas, ou mesmo se deveriam&nbsp;tentar.</p>
<p>Venho passando por situações assim nos últimos 11 anos (estou escrevendo em 1999). Participo de debates em BBSs desde os modems de 300 bauds, antes de existirem email e WWW. Passei por outras redes, pela AOL, pela Usenet etc. e hoje sou editor da Secular Web. O que eu posso dizer, com base em minha experiência, é que cada caso é um caso, mas há algumas dicas que podem se aplicar a todos os&nbsp;casos:</p>
<div class="bloco">
<h4>1 - Algumas pessoas são&nbsp;loucas.</h4>
<p>Depois de algum tempo de contacto você perceberá isto. Às vezes eles dão sinais assustadores e fantásticos de que não enxergam a realidade como nós, ou se esquecem de coisas importantes que disseram antes (e negam que disseram, mesmo diante da evidência), ou repetem mantras sem parar, como um disco rachado, ignorando suas perguntas e refutações, ou fazem ameaças de agressão física ou anunciam coisas incompreensíveis, mostrando que não entendem que estão se comunicando pela Internet. Há outros sinais, como o uso constante de palavreado religioso bizarro, mas acho que já deu para&nbsp;entender.</p>
<p>Não dá para discutir com gente assim. Eles precisam de ajuda profissional, mas aceite o fato de que eles nunca vão recebê-la. Religião é um tipo de loucura socialmente aceita, e nossa cultura rejeita a idéia de que uma pessoa muito religiosa possa, na verdade, estar louca. Nem os amigos, nem a família, nem seu pastor vão achar que eles estão malucos, apenas muito dedicados   fé. Não perca tempo conversando com essa gente. Se possível, ignore-os, mas, se não puder escapar, copie e cole trechos de mensagens anteriores que você vê como sinais de insanidade perigosa (veja meus exemplos acima) e diga a eles, na lata, que tais frases o incomodam e o deixam preocupado com a sanidade mental e a felicidade deles. Diga que você não está em condições de ajudá-los e que eles deveriam procurar um psicólogo. Eles vão ignorar seus conselhos, mas você terá feito a sua parte. Se eles insistirem, mande sempre o mesmo email como resposta. Mais cedo ou mais tarde, eles desistirão. Eles vão acabar se assustando com sua insistência de que eles não estão bem e vão parar de contactá-lo, como uma forma de escapar da&nbsp;verdade.</p>
<h4>2 - Outras pessoas&nbsp;mentem.</h4>
<p>Elas gostam de entrar em brigas e usam todo o tipo de manipulação emocional para vencer. Nada, ou quase nada, do que eles dizem é sincero, mas você não tem como saber, a menos que eles deixem algum furo ou contradição que indique que eles são um “troll”. “Trolls” costumam encher a Internet com mensagens provocadoras só para começar&nbsp;brigas.</p>
<p>Em geral, “trolls” devem ser tratados inicialmente de acordo com o item 1 ou o 3, até você ter certeza de que são mesmo “trolls”. O primeiro passo para lidar com eles é enviar uma mensagem particular mostrando as evidências. Pode ser difícil identificar um “troll”. Por exemplo, certa vez eu percebei que dois endereços de email correspondiam   mesma pessoa, fingindo ser duas. Não foi fácil chegar a esta conclusão. Tive que examinar os posts dessas duas pessoas em vários debates em fóruns, alguns deles encontrados por simples sorte. Mas já vi isto acontecer várias vezes. Outras pistas para se identificar um “troll” também são obscuras e nem sempre óbvias, mas você pode achá-las se ficar atento. E não se preocupe se vai ofendê-los. É assim que eles se “divertem”. Depois de identificá-los, não os leve mais a sério, apenas os&nbsp;ignore.</p>
<h4>3 - Algumas pessoas estão realmente&nbsp;assustadas.</h4>
<p>O seu medo se revela de várias maneiras. Uma delas é ter medo do futuro do mundo - eles vêem você como um demônio, com idéias tão monstruosas e incompreensíveis que elas não sabem o que fazer, daí suas reações desesperadas. Outra possibilidade é que elas têm medo que o mundo delas desabe. Aquelas dúvidas secretas, aqueles pecados, que as fazem sentir tanta culpa e que elas tentaram esconder, voltam a perseguí-las e elas tentam escapar ao tormento tornando-se virtuosas defensoras da fé. Para estes e outros medos, o tratamento é o&nbsp;mesmo.</p>
<p>Este tipo de crente assustado deve ser tratado com muita educação, com respostas claras e sempre pedindo que a pessoa informe o que eles não entenderam dos seus argumentos, de forma a que você possa mostrar a eles o que levou você a chegar a tais conclusões. Com a mesma educação e sinceridade, informe a eles o que você não entendeu da argumentação deles. Se você mostrar simpatia e genuíno interesse em entendê-los (e não apenas ganhar a discussão ou desconvertê-los), em vez de ter medo acabarão confusos e, mais tarde, indecisos (ou talvez concordem com algumas coisas). Isto é melhor que medo. Embora seja muito raro, pode ser que se desconvertam (já consegui isto antes), mas este não deve ser seu objetivo, e sim que entendam seus pontos de vista, mesmo sem adotá-los. Este objetivo é bem mais&nbsp;realista.</p>
<p>Procure sempre aprofundar os assuntos. Se a coisa começou com, por exemplo, “Gostaria de entender seu ponto de vista sobre o aborto”, concentre-se em alguma parte da resposta deles que você realmente não entendeu. Peça para explicarem melhor, concentre-se na resposta deles e assim por diante. Isto aos poucos o levará ao fundo de algum assunto e também o afastará do assunto principal, portanto, quando chegar ao fundo, volte ao raciocínio inicial, talvez para começar de novo em outra direção. Se você se mantiver educado e interessado no assunto, parecerá menos ameaçador a eles, mesmo se seus pontos de vista, por alguma razão, os&nbsp;assustarem.</p>
<p>Entretanto, seja honesto. Admita que sua intenção é desconvertê-los, embora você não espere conseguir nada, e que você gostaria, pelo menos, que eles entendessem melhor sua posição. Procure sempre reler suas mensagens antes de enviá-las, reescrevendo o que estiver agressivo ou arrogante. Se possível, peça a alguém para ler também. Sempre ajuda usar expressões como “parece-me que”, “na minha opinião”, em lugar de “o fato é que&#8230;”, pelo menos quando aplicável. Deixar claro o que é apenas opinião sua faz parte de ser&nbsp;honesto.</p></div>
<p>De qualquer forma, lembre-se de onde você está: você está num debate público, e você pode continuar debatendo enquanto quiser. Não deixe que o medo de ofender ou magoar alguém o impeça de fazer o que lhe parece importante e que você tem o direito de fazer, num lugar criado justamente para se fazer isto. As pessoas amadurecem enfrentando conflitos e dores. Aprendizado e aperfeiçoamento muitas vezes envolvem dores. As histórias de fanáticos que se tornaram livres-pensadores quase sempre mencionam um período de sofrimento, miséria e confusão em sua transição de uma crença para outra.. Aliás, o mesmo pode acontecer a quem se converte na direção&nbsp;oposta.</p>
<p>Portanto, causar dor não é necessariamente uma coisa ruim, mas só se o objetivo for bom e a dor for temporária e você não estiver invadindo a liberdade ou privacidade da outra pessoa. Se eles realmente não suportarem o incômodo, provavelmente vão abandonar o debate bem antes de que algum dano permanente lhes ocorra. Não importa quão magoados eles pareçam, eles não continuariam a conversa se doesse demais, a menos que fossem loucos. E, se forem loucos, corte o papo e recomende a eles que procurem ajuda&nbsp;profissional.</p>
<p>Acima de tudo, lembre-se de que, nos fóruns que você frequenta regularmente, você se torna um embaixador dos livres-pensadores. O que você fizer se refletirá em todos nós, mas, principalmente, nos seus próprios ideais e na sua visão de moralidade. Não se esqueça&nbsp;disto.</p>
<div class="textinfo"><strong>Autor:</strong> Richard Carrier<br />
<strong>Tradutor:</strong> <a href="http://fernandosilva.multiply.com/">Fernando Silva</a></div>
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		<title>Os Fundamentos do Ateísmo</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jan 2007 23:18:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alenônimo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Etimologicamente, a palavra <em>ateu</em> é formada pelo prefixo <em>a</em> — que denota ausência — e pelo radical grego <em>theós</em> — que significa <em>Deus</em>, <em>divindade</em> ou <em>teísmo</em>. Ou seja, a palavra <em>ateu</em> pode significar <em>sem deus</em> ou <em>sem teísmo</em>. Como a imprecisão desse primeiro significado o torna impróprio para representar a noção de descrença ateística, usa-se como base a acepção <em>teísmo,</em> que significa <em>crença na existência de algum tipo de deus ou deuses de natureza pessoal.</em> Neste caso, chegamos a uma definição mais coerente e clara de indivíduo ateu – <em>aquele que não acredita na existência de qualquer deus ou deuses.</em> Assim, quando queremos uma palavra que representa tal perspectiva, usamos o termo <em>ateu</em> ligado ao sufixo <em>ismo,</em>  que, na língua portuguesa, é usado com o significado de <em>doutrina, escola, teoria ou princípio artístico, filosófico, político ou religioso.</em> E, deste modo, chegamos a uma definição bastante nítida do que é ateísmo: estado de ausência de crença na existência de qualquer deus ou deuses.<span id="more-5"></span></p>
<p>Antes de tudo, é importante salientar que, comumente, a maioria dos ateus, quando se refere   sua posição, diz apenas que não acredita em deus/deuses. Isso não está incorreto, mas, na verdade, com isso quer dizer que não acredita na existência de deus/deuses. Afirmar apenas “não acredito em Deus” pode dar margem   interpretação errônea de que a pessoa em questão acredita em sua existência, mas é contra Deus, contra seus mandamentos, ou então que não lhe dá qualquer crédito, o desacredita, o difama, fato este que, não raro, dá origem a vários preconceitos em relação   posição ateísta. Esclarecido este ponto, vejamos quais são os tipos de ateísmo&nbsp;existentes.</p>
<p>Há várias modalidades de ateísmo, as quais diferem fundamentalmente quanto   atitude do indivíduo para com a idéia de uma divindade. Vale lembrar que tais classificações são meramente didáticas, feitas apenas para delinear as circunstâncias mais comuns em que o ateísmo pode ser encontrado. As duas modalidades-tronco são: 1.0) — <em>ateísmo implícito;</em> 2.0) — <em>ateísmo explícito.</em> A primeira, filosoficamente, é pouco relevante, e subdivide-se em: 1.1) — <em>ateísmo puro;</em> 1.2) — <em>ateísmo prático.</em> A segunda subdivide-se em outras duas variedades que são comumente denominadas: 2.1) — <em>ateísmo passivo</em> ou <em>ateísmo cético;</em> 2.2) — <em>ateísmo ativo</em> ou <em>ateísmo&nbsp;crítico.</em></p>
<ol>
<li>O <em>ateísmo implícito,</em> como o próprio nome indica, é a variedade de ateísmo que existe tacitamente. Neste caso, o ateísmo não se fundamenta na rejeição consciente e deliberada da idéia de deus, baseada em conceitos filosóficos e/ou científicos, mas simplesmente existe enquanto um estilo de vida que não leva em consideração a hipótese da existência de algum deus para se guiar. O <em>ateísmo implícito</em> pode ser dividido em <em>ateísmo puro</em> e <em>ateísmo prático</em>.
<ol>
<li>O <em>ateísmo puro</em> é o estado de ausência de crença devido   ignorância ou   incapacidade intelectual para posicionar-se ante a noção da existência de uma divindade. Nesta categoria entram todos os indivíduos que nunca tiveram contato com a idéia de um deus; por exemplo, alguma tribo, grupo ou povo que se encontre isolado da civilização e que seja alheio   idéia de um deus. Também se enquadram nesta categoria os indivíduos incapazes de conceber a idéia de um deus – seja isto por imaturidade intelectual ou por deficiências mentais; por exemplo, poderíamos citar crianças de pouca idade; pessoas que sofrem de alguma enfermidade mental incapacitante também se enquadram nesta&nbsp;categoria.</li>
<li>O <em>ateísmo prático</em> enquadra aqueles que tiveram contato com a idéia de deus, ou seja, que conhecem as teorias sobre as divindades, mas não tomam qualquer atitude no sentido de negá-la, rejeitá-la ou afirmá-la, permanecendo, deste modo, neutros sobre o assunto. Os integrantes desta categoria comumente se classificam como <em>agnósticos,</em> isto é, aqueles que julgam impossível saber com certeza se há ou não uma divindade. Sob esta ótica, devido a essa impossibilidade, afirmam que seria inútil qualquer esforço intelectual no sentido de comprovar ou refutar a existência de um deus. Qualquer pessoa que tem conhecimento da existência das religiões e de suas teorias, mas vive sem se preocupar se há ou não algum deus ou julga impossível sabê-lo com certeza, sem rejeitar ou afirmar explicitamente a idéia de deus, é classificada como pertencente ao <em>ateísmo&nbsp;prático</em>.</li>
</ol>
</li>
<li>O <em>ateísmo explícito</em> é a rejeição consciente da idéia de deus. A causa desta rejeição freqüentemente é fruto de uma deliberação filosófica; contudo, não é possível fazer qualquer espécie de generalização quanto   causa específica da descrença, pois cada pessoa julga individualmente quais razões são válidas ou inválidas para corroborar ou refutar a idéia da existência de um deus. O <em>ateísmo explícito</em> pode ser dividido em duas outras categorias.
<ol>
<li>O <em>ateísmo passivo</em> ou <em>cético</em> é a descrença na existência de deus(es) devido   ausência de evidências em seu favor. Esta variedade também pode ser encontrada sob a denominação de “posição cética padrão”, pois reflete um dos axiomas mais fundamentais do pensamento cético, que é: não devemos aceitar uma proposição como verdadeira se não tivermos motivos para fazê-lo; ou, em sua versão lacônica: sem evidência, sem crença. O ateu desta categoria limita-se a encontrar motivos para justificar sua rejeição da idéia de deus, por vezes esforçando-se em demonstrar por que as supostas provas da existência divina são inválidas, mas sem se preocupar com a negação da possibilidade da existência de um&nbsp;deus.</li>
<li>O <em>ateísmo ativo</em> ou <em>crítico</em> é a variedade mais difícil de ser defendida, pois é uma descrença que envolve a negação da possibilidade da existência de um deus. Os ateus desta categoria tipicamente se intitulam racionalistas e seguem o princípio de que o ataque é a melhor defesa. Ou seja, literalmente atacam a idéia de deus, evidenciando as contradições e as incongruências presentes neste conceito, empenhando-se em demonstrar, através de argumentos racionais, por que a existência de um deus — como definido pelas religiões — é logicamente&nbsp;impossível.</li>
</ol>
</li>
</ol>
<p>À primeira vista, talvez pareça que tais definições são demasiado singelas para serem capazes de abarcar todas as possibilidades, mas não são. Isso porque a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteúdo, pois não representa algo, mas apenas a ausência de algo; em suas categorias mais elaboradas, o ateísmo é uma ausência vinculada a uma rejeição ou a uma negação de algo largamente aceito, que, no caso, é o teísmo, em suas variadas&nbsp;formas.</p>
<p>Deste modo, a definição de ateísmo não subentende qualquer espécie de descrição prática do indivíduo. Nesta classificação, aquilo que os ateus fazem de suas vidas não é levado em consideração absolutamente. Ao contrário de outros <em>ismos</em> – como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo –, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios, mas somente uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação   idéia de deus. Portanto, o ateísmo não possui natureza análoga  s religiões&nbsp;teístas.</p>
<p>Uma vez que o ateísmo é apenas uma classificação – e não uma doutrina ou uma cosmovisão –, logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princípios morais ou noções de ética. É exatamente devido a esse fato que muitos indivíduos, inadvertidamente, classificam os ateus como imorais. Deve ficar claro, entretanto, que a ausência de um conjunto de valores morais, na verdade, refere-se somente ao ateísmo em si mesmo, de modo que, na prática, isso não implica qualquer incompatibilidade entre os dois&nbsp;absolutamente.</p>
<p>Assim como os teístas, os ateístas possuem valores morais que norteiam suas ações. Não há evidências empíricas em absoluto para sustentar a acusação de imoralidade tão freqüentemente lançada contra os descrentes. É claro que os ateus, como um todo, não compartilham um código moral único, não possuem uma moral baseada na autoridade de princípios ateísticos, que seriam absolutos ou superiores como os valores vinculados ao teísmo. Na realidade, os ateus escolhem individualmente – visando seus objetivos, suas necessidades – quais são os valores que melhor lhes servirão para guiar suas vidas em função do sentido que escolheram para elas. Ou seja, o que não existe é uma moral ateísta no sentido em que falamos de uma moral cristã. Entretanto, há, por certo, ateístas morais, os quais se baseiam em fatores de natureza humana para fundamentar seus valores de modo racional – pois é claro que, sem um deus, tais fatores não poderiam ser absolutos ou&nbsp;transcendentais.</p>
<p>Logicamente, a grande freqüência com que se tenta corroborar ou refutar o ateísmo através de julgamentos e valores morais apenas demonstra uma lamentável leviandade (ex: “ateus também fazem caridades” ou “muitos ateus são criminosos”). É claro que, se desejarem, alguns ateus podem ser bondosos, compassivos, solidários etc. Talvez devido ao fato de a maioria dos religiosos se identificar com esse tipo de moral sua típica ojeriza   palavra <em>ateu</em> possa ser um pouco amenizada; todavia, pretender que a bondade tenha, em si mesma, algum valor, que ofereça qualquer verossimilhança   posição, é, no mínimo, um absurdo. O mais “dogmático” dos ateísmos ainda não passa de uma mera negação (“Deus não existe”, afirmativamente). Sendo assim, assumir um posicionamento ateísta remete-nos a um plano muito mais fundamental, muito mais abrangente. Em outras palavras, além de ser independente da moral, o ateísmo a precede em profundidade filosófica. Ou seja, na melhor das hipóteses, somente será possível deduzir, individualmente, valores a partir do ateísmo, mas nunca o ateísmo a partir dos valores. Daí a impossibilidade de a bondade, por exemplo, servir de respaldo a ele; e o mesmo vale para objeções ao ateísmo baseadas em delitos cometidos por indivíduos&nbsp;ateus.</p>
<p>Há também uma grande tendência de se querer vincular a responsabilidade das ações   visão de mundo do indivíduo, e tal tendência está ligada   idéia de que esta vem sempre carregada de valores e deveres – neste caso, também vinculada ao mal-entendido de que o ateísmo é uma crença positiva. Por exemplo, se um cristão faz uma caridade em nome de Deus e usa a Bíblia para justificar tal feito, então se pode dizer que o cristianismo é, em certo grau, responsável por tal ação. Isso porque toda religião tem seus dogmas, suas verdades, seus princípios superiores, em suma, seu cânone “tu deves”. Portanto, ela define o que é o bem e o que é o mal, o que é certo e o que é errado, e assim por diante. Diferentemente, o ateísmo encontra-se alheio a todo esse rebuliço de valores que os humanos cultivam. Se um ateu faz algo bom ou ruim, isso não se deve ao ateísmo, pois o ateísmo não diz coisa alguma a respeito do que devemos ou não fazer. O ateísmo não diz o que é o bem nem o que é o mal, muito menos o que é certo ou errado. Ele não arrasta consigo nenhuma espécie de valor, e é por isso que não se pode atribuir-lhe qualquer tipo de culpa ou responsabilidade. Tudo recai tão-somente sobre os ombros do arbítrio individual, não sendo possível qualquer espécie de generalização da causa de seu ato que venha a abarcar o&nbsp;ateísmo.</p>
<p>Por isso, todo ateu que defende valores morais específicos – mesmo se forem de benevolência e de caridade – sem deixar claro que isso não tem qualquer relação com sua descrença, estará, sem perceber, prestando um grande desserviço aos ateus. Talvez a intenção seja boa, isto é, pense que com isso está revertendo o estereótipo negativo que tipicamente se tem dos ateus – de que são todos pervertidos, frustrados, imorais, insensíveis, criminosos. O problema, naturalmente, reside no fato de que esse contra-ataque pressupõe a falsa idéia de que o ateísmo deve se defender de acusações morais – e isso só termina por gerar mais confusão ainda. A personalidade dos ateus não tem qualquer relação direta com o ateísmo. Todos esses estereótipos sociais de como os ateus são não passam de preconceito, ilusão, pois, como vimos, o ateísmo não é capaz de justificar nada&nbsp;disso.</p>
<p>O fato de algum ateu ser altruísta ou egoísta, bondoso ou maldoso, compassivo ou cruel é apenas reflexo de seu temperamento e dos valores adotados pelo indivíduo em particular. Não delinear essa distinção entre o ateísmo e a moral faz com que as pessoas pouco aprofundadas no assunto se acostumem a encarar os padrões comportamentais dos indivíduos descrentes como uma conseqüência de seu ateísmo; ou seja, do mesmo modo que os ateus caridosos darão uma boa imagem ao ateísmo, os ateus criminosos irão macular e infamar sua imagem. Além de isso dar luz a diversos e indesejáveis estereótipos, estes ainda ocultam a verdadeira face do ateísmo – a&nbsp;neutralidade.</p>
<p>Portanto, ateus não compartilham necessariamente qualquer similaridade, exceto a descrença, é claro. Ateus podem ser bons ou maus, santos ou pervertidos, altruístas ou egoístas, individualistas ou coletivistas; podem ser democratas, comunistas, anarquistas ou monarquistas; podem ser filósofos, médicos, psicólogos, professores, eletricistas, lixeiros, escritores, comerciantes, alpinistas, atores ou qualquer outra coisa. O ateísmo, em si mesmo, é estritamente neutro, e, portanto, vazio de quaisquer implicações morais ou filosóficas. Ateísmo é apenas o nome que se dá ao estado de ausência de teísmo – ou seja, tão-somente a ausência de crença na existência de quaisquer deuses. E, enfim, se pode ser dito que os ateus têm algo em comum, este algo é exatamente não ter nada em comum, pelo menos não necessariamente, como uma regra&nbsp;geral.</p>
<p>Todas as pessoas, um dia, já foram ateístas – sem exceção. Todos os bebês nascem sem discernimento suficiente para compreender a noção de um deus. Como vimos acima, esse estado é enquadrado como uma categoria de ateísmo. É claro que não se trata de uma descrença deliberada, mas demonstra quão absurdo é tentar derivar qualquer espécie de conseqüência do fato de alguém ser ateu. Certamente os religiosos fervorosos objetarão essa idéia, dizendo que é injusto taxar qualquer pessoa incapaz de formar seu juízo a respeito do assunto como uma ateísta. Contudo, vejamos: injusto por quê? Há algo de errado em ser ateu? É sinal de perversão, insanidade? É claro que não (talvez sim para alguns teístas intolerantes&#8230;). Mas, enfim, nesta situação, a palavra parece estar descrevendo perfeitamente a perspectiva do indivíduo em relação   idéia da existência de divindades. Por exemplo, certamente ninguém levantaria objeções   pretensão de classificar um bebê como um indivíduo apolítico por ser incapaz de conceber o que é a política e posicionar-se em relação a ela; tampouco   idéia de que todos eles são analfabetos. <em>Como se pode dizer,</em> afirmou Richard Dawkins, <em>que uma criança de quatro anos seja Muçulmana, Cristã, Hindu ou Judia? É possível falar de um economista de quatro anos de idade? O que você diria sobre um neo-isolacionista de quatro anos ou um liberal Republicano de quatro anos?</em> A questão está na incoerência de imputar <em>posições positivas</em> a quem não pode responder por elas, sequer pode concebê-las. Em nossa sociedade, entretanto, a palavra <em>ateu</em> encontra-se tão carregada de preconceitos, tão estigmatizada, que chamar um indivíduo de ateu, longe de ser uma mera classificação neutra, na verdade aparenta ser uma espécie de&nbsp;insulto.</p>
<p>Objetivamente, percebemos que essa animosidade para com a definição apresentada de <em>ateísmo puro,</em> na realidade, não tem nada de razoável, impessoal ou desinteressado. O problema certamente não está na definição, mas nos preconceitos que são nutridos em relação   posição ateísta. O grau em que um indivíduo religioso se sente incomodado com a idéia de se chamar uma criança desinformada de atéia pode ser usado para medir o grau de preconceito e intolerância que possui em relação ao ateísmo. Digam o que disserem, o ateísmo não é uma perversão, nem uma teimosia, nem uma insensibilidade, nem qualquer outra coisa senão a ausência de crença na existência de deus – o resto fica por conta dos&nbsp;preconceitos.</p>
<p>Entretanto, quando analisamos a perspectiva religiosa, torna-se compreensível que tais preconceitos existam. O fato de alguém rejeitar a verdade óbvia de que existe um criador, e declarar-se abertamente ateu, só pode significar que se trata de uma pessoa insensível, cínica, ressentida, frustrada com a vida e revoltada com Deus. Mas, logicamente, tal raciocínio é de todo unilateral. O problema não está nos ateus, mas no fato de que homens convictos são prisioneiros de seus pontos de vista. Quem jura lealdade absoluta a uma doutrina ou ponto de vista específico inevitavelmente fecha os olhos para todo o resto e, deste modo, a imparcialidade torna-se algo impossível. Homens comprometidos com um ponto de vista perdem sua liberdade de pensamento, tornam-se incapazes de enxergar a realidade senão através de uma ótica parcial e pessoal, e assim tudo passa a dividir-se em dois grupos: os que, como eles, sabem da verdade, e os outros, que estão todos errados e perdidos. Sem dúvida, uma atitude lamentável, pois qualquer pessoa razoavelmente esclarecida sabe que o uso da convicção – ou da fé – como único critério da verdade fatalmente conduz a uma completa falta de imparcialidade que cega e tolhe a visão de&nbsp;mundo.</p>
<p>No que concerne a origem de tais preconceitos, é impossível saber exatamente o que acontece na mente religiosa, mas podemos lançar mão de uma analogia que parece ser bastante razoável para explicá-la. Digamos que, na perspectiva religiosa, um indivíduo declarar-se ateu talvez seja algo tão chocante quanto um filho querido e bem cuidado que afirma não amar seus pais. Algo como dizer: <em>Que importa se eles me amam? Que importa se eles me geraram, me alimentaram e me educaram? Fizeram-no porque quiseram; não obriguei ninguém a isso e, portanto, não devo gratidão alguma.</em> Para a maioria das pessoas, certamente tal afirmação é chocante; vem   nossa mente a imediata impressão de que tal pessoa é insensível e cínica, sendo difícil imaginar que ela é feliz e mentalmente sadia. Mas, sem dúvida, temos de admitir que as palavras dessa pessoa <em>fazem sentido,</em> e são estritamente racionais. O fato é que nós todos temos preconceitos, e acharmos que todos devem amar cegamente seus pais apenas porque foram bondosos e cuidaram bem de nós é só mais um deles – provavelmente, isso está enraizado em instintos; mesmo assim, em nível objetivo, continua sendo um preconceito. Esse é um bom exemplo para demonstrar que as crenças arraigadas por motivos emocionais parecem possuir uma curiosa imunidade   crítica racional. Portanto, supondo-se que as crenças religiosas fundamentam-se em fatores emocionais, isso explicaria por que afirmar que “não amamos nosso criador” pode soar como algo muito forte a eles, desembocando fatalmente em preconceitos de todo&nbsp;tipo.</p>
<p>Percebendo que não podem estereotipar os ateus moralmente ou filosoficamente, os críticos do ateísmo partem para outra tática. Deslocam-se para o campo da prática e afirmam que a descrença é negativismo puro; que destrói, mas não reconstrói; que deixa um vazio na vida das pessoas; que é inútil. Mas essa argumentação é claramente tendenciosa, pois tenta depreciar a posição ateísta contrapondo-a de modo distorcido ao teísmo. Se o ateísmo não é um conjunto de valores, se não é uma explicação e nem um guia para a vida das pessoas, por que ele haveria de ser útil nesses aspectos? Não há o menor sentido em fazer tal comparação. O ateísmo não é uma alternativa para o teísmo e nunca pretendeu ser. Todavia, naturalmente, sem dogmas a serem seguidos, inevitavelmente recai sobre nossos próprios ombros a incumbência de escolher e julgar os valores, isto é, de nos posicionarmos individualmente frente ao mundo em que vivemos. Mas essa incumbência deve ser entendida em termos de liberdade de escolha, não de vazio existencial – tal liberdade pode gerar angústia, é claro, mas isso não vem ao caso neste ponto da argumentação. O ateísmo, ao contrário do que alguns fazem parecer, não é a maldição da vida sem sentido, mas a maldição de precisar escolher um sentido. Enfim, é difícil imaginar o que poderia haver de ruim e negativo no fato de que cada um é livre para criar suas próprias regras e perseguir seus próprios objetivos, em vez de ser obrigado a seguir as regras e os objetivos de&nbsp;outrem.</p>
<p>Outro equívoco comumente cometido por aqueles que se opõem ao ateísmo consiste em tratar tal posição como análoga ao teísmo, como uma “religião da descrença”. Ou seja, julgam que os ateus, assim como os teístas, na realidade professam alguma espécie de crença dogmática na inexistência de deus(es). Partindo dessa premissa, concluem que o ateísmo não tem mais validade que qualquer crença religiosa, pois, assim como os teístas acreditam em Deus e são incapazes de provar sua existência, os ateus seriam descrentes em Deus igualmente incapazes de provar a sua&nbsp;inexistência.</p>
<p>Pelo que vimos acima, tal objeção obviamente transborda uma tremenda incompreensão do que é ateísmo. Primeiramente, porque o ateísmo não é uma crença dogmática na inexistência de deus, mas somente a ausência de crença nesse tipo de entidade sobrenatural. Em segundo lugar, porque há uma regra lógica muito simples – e convenientemente ignorada pelos teístas – que diz o seguinte: não é razoável acreditar em algo sem ter motivos para fazê-lo. Qualquer indivíduo sensato há de convir que a atitude de não acreditar em algo – por não haver evidências convincentes em seu favor – não é uma crença, e tampouco precisa se sustentar em&nbsp;provas.</p>
<p>Além disso, provar negações universais, por motivos lógicos, é algo extremamente difícil, e alegremente certos teístas usam isso para afirmar que ninguém é capaz de provar a inexistência de Deus. À primeira vista, isso parece razoável, e seria suficiente para empatar os placares. Mas, com um pouco de pensamento crítico, logo se percebe a incoerência: não podemos provar a inexistência de praticamente qualquer coisa. E, para deixar a idéia clara, só precisamos de algum tempo livre para dar asas   nossa imaginação especulativa. Por exemplo, formulemos algumas hipóteses&nbsp;bizarras:</p>
<ol>
<li>Nosso Universo, na verdade, é um “aquário espacial” feito por alienígenas que estão brincando de cultivar seres&nbsp;humanos.</li>
<li>Existem cogumelos imateriais que vivem numa dimensão paralela, os quais estão nos vigiando constantemente, apesar de não podermos&nbsp;detectá-los.</li>
<li>A verdadeira divindade, que criou o mundo e os homens, é Zeus, com a ajuda de Apolo e Dionísio. Eles e inumeráveis outros deuses estão todos no Olimpo nos&nbsp;observando.</li>
<li>A Terra em que vivemos é um elétron; o Sol é um conjunto de prótons e nêutrons; nosso sistema planetário como um todo é um átomo de flúor gigantesco. Os físicos modernos discordam de tal afirmação, mas isso acontece porque o homem ainda não possui tecnologia suficiente para observar e analisar a realidade de modo&nbsp;preciso.</li>
<li>O Universo só parece mecânico e impessoal; na verdade, o mundo em que vivemos é&nbsp;auto-consciente.</li>
<li>Há uma civilização pacífica que habita o núcleo do Sol; ela se protege do calor através de um sistema hiper-tecnológico que nos é inconcebível; nela vivem milhões de unicórnios, centauros e minotauros em um grau de desenvolvimento muito superior ao&nbsp;nosso.</li>
<li>Há um grande dragão alado vermelho cuspidor de fogo em meu quarto; contudo, toda vez alguém tenta observar ou confirmar sua existência, este desaparece imediatamente de modo&nbsp;misterioso.</li>
</ol>
<p>Então perguntemos: como alguém seria capaz de refutar tais hipóteses? Não temos qualquer motivo para julgá-las verdadeiras, mas, mesmo assim, não temos como provar que são definitivamente falsas. É esse o problema das negações&nbsp;universais.</p>
<p>Por exemplo, no caso da sexta hipótese, o único modo de provar que tais seres não existem seria ir até o núcleo do Sol e olhar se estão lá ou não, mas isso não é realmente uma boa idéia, pois freqüentar locais que estão a milhões de graus Celsius é relativamente perigoso. Basicamente, isso significa que não podemos provar a inexistência dessa tal civilização <em>helionuclear.</em> Entretanto, faz algum sentido declarar que essa impossibilidade serve como uma evidência de sua existência? Definitivamente, não. Ademais, o fato de alguém acreditar piamente em tal hipótese é irrelevante   sua&nbsp;veracidade.</p>
<p>O mesmo se aplica, naturalmente,   idéia de deus: trata-se somente de uma hipótese sem comprovação – uma especulação, realmente. Só precisamos trocar a afirmação “Há seres vivos no centro do Sol” por “Deus criou o mundo” ou “Deus existe”. Não existem razões para julgarmos que a hipótese divina deveria fugir   regra. Pelo mesmo motivo que as pessoas, normalmente, não acham sensato acreditar que estamos sendo vigiados por cogumelos imateriais, os ateus acham sensato não acreditar na hipótese da existência de um deus&nbsp;criador.</p>
<p>Devemos notar, entretanto, que isso não implica de modo algum a impossibilidade da existência de cogumelos imateriais ou deuses. De fato, nenhuma das hipóteses apresentadas acima é impossível. Simplesmente não acreditamos nelas porque não temos motivos para julgar que são verdadeiras. Como vemos, não há qualquer traço de extremismo em tal raciocínio, como poderia parecer   primeira&nbsp;vista.</p>
<p>Esse contra-argumento dos teístas — “prove-me que Deus não existe” —, que costuma ser aceito prontamente como válido pelos desavisados, é uma falácia argumentativa que recebe o nome de <em>Inversão do ônus da prova,</em> na qual aquele que afirma a veracidade de uma proposição coloca sobre os incrédulos o dever de provar sua falsidade e, se estes forem incapazes de fazê-lo, imediatamente ficaria comprovada a veracidade da proposição. O engano, nota-se, é óbvio: como poderíamos fazer isso – provar a inexistência de tal deus – se, na realidade, nem mesmo existem provas de sua existência para&nbsp;refutarmos?</p>
<p>Na realidade, o dever de provar a veracidade recai sobre os ombros daquele que afirma algo. Se algum indivíduo diz “Deus existe”, é sobre ele que fica a responsabilidade de provar a veracidade de sua proposição, ou seja, provar a existência de Deus. Se falhar em prová-la, então não teremos motivos para aceitá-la e, assim, a descrença torna-se plenamente&nbsp;justificada.</p>
<p>Assim, vemos que ateus não têm o dever de provar coisa alguma, pois, no ato de descrer, não estão afirmando nada. Em geral, o que dizem é simplesmente o seguinte: Não acredito em deus porque não tenho motivos para fazê-lo; caso tivesse algum motivo, acreditaria; mas não encontrei nenhum. Ante a ausência de evidências, ser ateu não passa de uma simples questão de honestidade intelectual. Bertrand Russell resumiu muito bem o conceito fundamental nesta&nbsp;passagem:</p>
<p class="citacao"><q>Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa idéia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido   minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade.</q></p>
<p>Mas isso não é suficiente para fechar a questão. Há uma frase – a qual, aliás, é bastante famosa entre os ateus – que serve como um aviso para que mantenhamos nossa mente sempre aberta: <em>ausência de evidência não é evidência da ausência.</em> A simples falta de evidências não é suficiente para justificar a crença na inexistência, e a maioria dos ateus realmente não acredita de modo definitivo na inexistência&nbsp;divina.</p>
<p>Entretanto, não podemos ignorar o fato de que há certos ateus que acreditam na inexistência de deus(es). Como vimos, são os que pertencem   categoria do <em>ateísmo crítico.</em> Para justificar tal posicionamento, a ausência de evidência não é suficiente. Neste caso, torna-se necessário demonstrar a impossibilidade da existência divina. E, deste modo, poder-se-ia dizer que esta posição é dogmática, pois é impossível provar definitivamente a inexistência de qualquer deus. Mas o pequeno detalhe que faz toda a diferença reside no fato de que não tentam provar a impossibilidade da existência de qualquer divindade, mas de uma divindade específica de tal ou tal&nbsp;religião.</p>
<p>O <em>ateu crítico</em> usa a própria crença do indivíduo teísta para fundamentar sua argumentação. Se alguém diz: “Eu acredito em Deus”, o <em>ateu crítico</em> pergunta coisas como: “Que é Deus?”, “Qual é a natureza desse Deus?”, “Quais são seus atributos?”. Por exemplo, estudando as definições do Deus bíblico, o <em>ateu crítico</em> poderia procurar contradições nos atributos desta divindade e, usando a regra lógica da <em>não-contradição</em> – tudo aquilo que se autocontradiz é necessariamente falso –, usa essa informação para argumentar contra a existência de tal ser. Assim, do mesmo modo que a regra da não-contradição justifica a crença na inexistência de entes cujos atributos se excluem mutuamente – como cubos esféricos ou círculos hexagonais <em>–,</em> também justifica a crença na inexistência de um deus cujos atributos são autocontraditórios. Nesta situação, a crença encontra-se justificada de modo racional e lógico, não sendo possível, portanto, acusá-la de dogmatismo – talvez de racionalismo reducionista, mas isso será discutido&nbsp;posteriormente.</p>
<p>Em discussões do tipo Ateísmo <em>versus</em> Teísmo, percebe-se facilmente que a maioria das pessoas não entende o que é ateísmo. É por isso que grande parte dos argumentos usados contra ele é notável por sua absoluta irrelevância. Por exemplo, quando algum ateu assume abertamente sua posição, logo é coberto de argumentos verborrágicos e disparates de todo tipo. Alguns exemplos: “Você quer ir para o inferno?”; “Você é mais um daqueles que acredita que isso tudo surgiu do nada?”; “Então explique a origem da vida e do Universo”; “É uma pena que você seja tão&nbsp;infeliz”.</p>
<p>Sem levar em consideração o primeiro exemplo e o último, pois sequer merecem uma resposta séria, devemos ter em mente que o fato de alguém ser ateu não diz nada, absolutamente nada sobre o que ele pensa a respeito de tais assuntos. Isso porque o ateísmo possui caráter negativo, e as negações são extremamente parcimoniosas no fornecimento de dados. Por exemplo, se alguém dissesse “Eu não me chamo José”, que poderíamos inferir a partir disso além do fato de que seu nome é outro, que não José? Seria absurdo pensar que tal informação fornece qualquer pista significante sobre seu verdadeiro nome. É simplesmente incabível tentar deduzir a partir do fato de alguém ser ateu quais são seus pontos de vista filosóficos, morais ou científicos sobre quaisquer&nbsp;assuntos.</p>
<p>É claro que os religiosos costumam fazer esses tipos de pergunta porque a maioria dos ateus adota o posicionamento científico, que se baseia na experimentação e no racionalismo, mas não necessariamente. O indivíduo ateu pode possuir suas próprias teorias ou então, sem problema algum, pode se abster de responder essas questões, alegando que, na ausência de dados corroborativos para construir qualquer teoria razoavelmente verossímil, qualquer afirmação não passaria de um mero&nbsp;disparate.</p>
<p>Nesse último caso, a resposta mais típica  s perguntas dessa natureza é simplesmente esta: não&nbsp;sei.</p>
<p>Como surgiu o Universo? — Não&nbsp;sei.</p>
<p>Por que existimos? — Não&nbsp;sei.</p>
<p>Deus existe? — Não sei. Afirmo apenas que nasci neste mundo e que sou ignorante quanto a todos esses fatos. Nossa existência parece um grande mistério insondável. Portanto, de nada adianta dizer “foi Deus” se, na realidade, não tenho motivos para acreditar nisso. Prefiro admitir meu desconhecimento a abraçar uma hipótese infundada para tentar mascarar minha ignorância ante este grande ponto de interrogação que é o mundo em que&nbsp;vivo.</p>
<p>A integridade intelectual impede que pontos de interrogação sejam utilizados como argumentos em favor de hipóteses confortantes como a da existência de um deus. O fato de não sabermos de onde viemos, como surgiu a vida ou qualquer outra coisa, não significa em absoluto que “foi Deus”. Não sabermos de onde tudo isso surgiu significa apenas que não sabemos de onde tudo isso surgiu – e tão-somente; nem mesmo significa que surgiu. A ignorância <em>não</em> é um argumento, definitivamente; e a tentativa de usá-la como um argumento somente revela uma grande e lamentável parcialidade, que muito provavelmente deriva-se da necessidade de&nbsp;crer.</p>
<p>Esse deus, que só habita os recônditos de nossa ignorância, é tipicamente alcunhado “Deus das lacunas”, pois só sobrevive por entre as sombras do desconhecido. É devido a esse subterfúgio explicativo que, outrora, devido   ignorância, os fenômenos naturais – como trovões e relâmpagos – eram interpretados como manifestações de um deus descontente com os humanos. É claro que, naquela época, esta parecia uma explicação tão plausível e respeitável para os fenômenos naturais quanto, atualmente, dizer que o Universo foi criado por um deus, pois ambas coisas eram igualmente desconhecidas. Mas, nos dias de hoje, a ciência já lançou luz – a maior inimiga do Deus das lacunas – sobre os processos responsáveis pelos trovões e pelos relâmpagos, tornando ridícula a afirmação de que se devem   manifestação de um deus enfurecido com os&nbsp;humanos.</p>
<p>Hipócrates, nascido por volta de 460 a.C., considerado um dos pais da medicina, em sua época já compreendia a tendência humana de mistificar aquilo que lhe é desconhecido – <em>Os homens pensam que a epilepsia é divina meramente porque não a compreendem. Se eles denominassem divina qualquer coisa que não compreendem, não haveria fim para as coisas&nbsp;divinas.</em></p>
<p>Sejamos honestos quanto a nós mesmos: somos seres complexos, capazes de empreendimentos notáveis, mas também limitados, e não temos todas as respostas ao nosso alcance – pelo menos não atualmente. Portanto, quem não quiser se enganar através de fábulas explicativas e consoladoras, precisa aprender a conviver com tais limitações, pois a atitude de responder uma pergunta se valendo de um mistério, na realidade, não explica coisa alguma. Isso, naturalmente, não significa fechar-se totalmente para outros pontos de vista. Em nosso conhecimento, há – e deve haver – lugar para a dúvida, para a incerteza, pois deste modo nosso conhecimento não ficará cristalizado na forma de crenças impermeáveis  s novas evidências que vierem a ser descobertas e  s novas teorias que vierem a ser formuladas. Se não aceitarmos que nossa visão de mundo é provisória, que sempre estará sujeita a revisões, ela se tornará obsoleta rapidamente. Então devemos conceder   hipótese da existência de um deus alguma plausibilidade? Certamente: a mesma que concederíamos a uma especulação bastante improvável que, há milênios, está   espera de evidências que a&nbsp;comprovem.</p>
<p>Vale a pena fazermos, aqui, um breve comentário sobre a posição denominada <em>agnosticismo.</em> Equivocadamente, costuma-se pensar que esta jaz no limiar da dúvida entre o teísmo e o ateísmo, quando, na verdade, ela é independente da questão da crença/descrença em um deus. Tal visão diz respeito somente   impossibilidade de a mente humana conceber, compreender ou julgar alguns tipos de questões – afirmando que tais assuntos estão além do escopo da racionalidade humana, sendo, portanto, impossível formular sobre eles qualquer juízo&nbsp;seguro.</p>
<p>É errado pensar no agnóstico como um indivíduo meio-termo entre as duas perspectivas, ou seja, que não afirma nem nega a existência de uma entidade superior, supostamente representando uma posição de questionamento sensato em vez de um extremismo ateísta. O agnosticismo certamente não é uma terceira opção entre o teísmo e o ateísmo, e é fácil evidenciar o porquê. O agnosticismo envolve a crença em deus? Não. Envolve a descrença em deus? Não. Então que relação necessária tem com esta questão? Nenhuma. Como explicou George H. Smith, <em>O termo “agnóstico”, em si mesmo, não indica se alguém acredita ou não num deus (&#8230;) agnosticismo não é uma posição independente ou um meio-termo entre teísmo e ateísmo, pois classifica de acordo com um critério&nbsp;diferente.</em></p>
<p>A rigor, a palavra agnóstico significa apenas <em>sem conhecimento,</em> isto é, trata-se de um termo genérico que diz respeito somente   afirmação da impossibilidade de se obter conhecimento acerca de alguma coisa ou assunto qualquer. Então seria mais correto dizer algo como: este indivíduo – ateu ou teísta – é agnóstico em relação   questão da existência de deus ou de alguma “questão x”&nbsp;qualquer.</p>
<p>Portanto, como podemos perceber, não existe um meio-termo entre acreditar e não acreditar, ou seja, entre teísmo e ateísmo. Afirmar “acho impossível saber com certeza” não é uma solução, mas uma evasiva. O que comporta um meio-termo, na verdade, é a lacuna que fica entre a negação e a afirmação de deus, e tal lacuna corresponde ao <em>ateísmo cético</em> ou ao <em>ateísmo&nbsp;prático.</em></p>
<p>Como se pode notar, essa noção do agnosticismo é uma posição errônea comumente adotada por aqueles que não são teístas, mas que na verdade não consideram a existência de deus uma hipótese absurdamente improvável, como alguns ateístas mais fervorosos. Mas, sem dúvida, os agnósticos desse tipo são, tecnicamente, ateus. Provavelmente muitos se denominam como tais porque têm receio do estigma social vinculado ao ateísmo, que é muito forte; então transferem o significado de suas posições a outros termos que soam mais brandos, como agnóstico – como convém, pois em cima do muro não caem tantas&nbsp;pedras.</p>
<p>Voltando ao assunto principal, é sempre comum vermos, devido a todos os mitos que existem sobre o ateísmo, indivíduos imaginando e se perguntando como os ateus são. Talvez pensem que são criaturas exóticas raríssimas, que vivem num submundo oculto, se vestem de preto e advogam pela destruição de todas as religiões – mas isso não passa de fantasia. Em sua maioria, ateus são pessoas realmente comuns, que apenas baseiam na lógica e nas evidências suas opiniões sobre a realidade. O fato é que, provavelmente, todas as pessoas já se depararam com ateus casualmente, mas sem se aperceberem disso, daí acharem que são tão raros. Na realidade, se não perguntarmos diretamente aos indivíduos, é quase impossível descobrir se são ateus. São poucos aqueles que gritam aos quatro ventos que não acreditam em nenhum&nbsp;deus.</p>
<p>Sem dúvida, também há os ateus mais exacerbados, tipicamente denominados ateus militantes, alguns dos quais mantêm uma postura hostil para com a religião. Alguns julgam que ela é uma grande travanca ao progresso da humanidade – principalmente aqueles que têm algum conhecimento de História. Mas isso, fundamentalmente, como vimos, não pode ser encarado como uma conseqüência direta do ateísmo, pois não existe uma Santa Escritura Ateísta que dita “Tu vilipendiarás a religião e escarnecerás a crença do teu próximo”. Se algum ateu procede de tal maneira, trata-se apenas de um posicionamento individual, e querer imputar a causa de seu comportamento agressivo ao ateísmo é uma atitude errada e&nbsp;desonesta.</p>
<p>Muitos também pensam que os ateus são irredutíveis em sua descrença, que são descrentes crônicos, incapazes de mudar seu ponto de vista. Se podemos dizer que os ateus são irredutíveis, o são apenas na atitude de não acreditar em hipóteses sem comprovação. Certamente, se algum teísta surgisse com uma prova realmente válida para a existência de deus, até os ateus mais ferrenhos teriam de dar o braço a torcer. Aliás, não há motivos para se pensar o contrário. Afinal, por que algum indivíduo se oporia   existência de um criador? Quem não gostaria de ser a coroa da criação? Quem escolheria ser um efêmero mamífero, um grão de pó pensante, se pudesse ser o imortal supra-sumo do Universo? Para citar Peter&nbsp;Atkins:</p>
<p class="citacao"><q>Seria de fato fascinante se o Universo tivesse um propósito; seria provavelmente prazeroso haver vida após a morte. Porém, não há um só pedacinho de evidência em favor de nenhuma das duas especulações. Como é fácil de compreender por que as pessoas anseiam por um propósito cósmico e vida eterna, e não existe evidência para ambos, me parece uma conclusão inescapável que nenhum dos dois existe. </q></p>
<p>Realmente seria ótimo se todos nós fôssemos tão especiais quanto gostaríamos de ser, mas o fato é que não temos motivos para acreditar que somos. Novamente, é a integridade intelectual que nos impede de acreditar em algo infundado somente porque é&nbsp;confortante.</p>
<p>Pelo exposto acima, percebemos que o ateísmo, ao contrário da imagem que se pinta dele, não é representado por uma seita de iconoclastas fanáticos, imorais e desequilibrados querendo destruir a religião a todo custo. Sem dúvida, o ateísmo apresenta-se como uma posição totalmente razoável, lúcida e sensata quando encarada na perspectiva objetiva – isto é, sem se levar em conta fatores subjetivos (o modo como “gostaríamos que a realidade fosse”, “no que precisamos acreditar para viver” etc.). E, como foi pontificado no início deste trabalho, o que os indivíduos livres-pensadores buscam, em geral, não são certezas absolutas: buscam aquilo que é mais provável de ser&nbsp;verdadeiro.</p>
<p>O objetivo deste capítulo foi desfazer alguns dos principais mitos, preconceitos e calúnias que gravitam ao redor do ateísmo, para que assim sejamos capazes de enxergar a posição de modo cristalino. Naturalmente, fica claro quanto esforço é feito da parte dos teístas no sentido de deturpar o verdadeiro significado dessa descrença. Em vez de enfrentar as verdadeiras questões, criam espantalhos do que seria o ateísmo e, destruindo-os, ufanam-se de tê-lo refutado, quando na realidade tal refutação não passa de um&nbsp;mal-entendido.</p>
<p>Contudo, não pensemos que são todos tão ingênuos e inocentes: caluniam porque não podem enfrentar; evadem porque não podem responder. O fato é que o teísmo sempre terminou como perdedor em todas as vezes que tentou enfrentar os fatos e a racionalidade, e simplesmente desmoronaria se tentasse, honestamente, se confrontar cara a cara com todas as questões que o ateísmo&nbsp;apresenta.</p>
<p>Deste modo, se há uma questão que realmente incorpora todo o peso do verdadeiro desafio que o ateísmo lança contra as religiões, é esta: que motivos temos para acreditar na existência de um&nbsp;deus?</p>
<div class="textinfo">Texto do livro <em>“Ateísmo e Liberdade”</em>, de <a href="http://ateus.net/autor/">André Díspore Cancian</a><br />
<strong>Fonte: </strong><a href="http://ateus.net/artigos/ateismo/os_fundamentos_do_ateismo.php">Ateus.net</a></div>
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		<title>O Fundamento Humano das Leis e da Ética</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jan 2007 23:16:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Silva</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>

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		<description><![CDATA[Há uma tendência da parte de muitos teístas de assumir que o ônus da prova recai sobre o não-teísta quando o assunto é moral. Deste modo, o indivíduo que opera sem uma base teológica é solicitado a justificar seu ato – a assunção do teísta sendo que nenhuma moral é possível na ausência de alguma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há uma tendência da parte de muitos teístas de assumir que o ônus da prova recai sobre o não-teísta quando o assunto é moral. Deste modo, o indivíduo que opera sem uma base teológica é solicitado a justificar seu ato – a assunção do teísta sendo que nenhuma moral é possível na ausência de alguma forma de lei “superior”.<span id="more-4"></span></p>
<p>Em nossa cultura, as pessoas estão tão com acostumadas   idéia de que toda lei tem um legislador, de que toda regra tem um moderador, de que toda instituição tem alguma autoridade, e assim por diante, que a idéia de algo ser contrário a isso possui em si o toque no caos. Como resultado, quando alguém vive sua vida sem referência a alguma autoridade última em relação   moral, pensa-se que seus valores e aspirações são arbitrários. Ademais, freqüentemente argumenta-se que, se todos tentassem viver desse modo, nenhum acordo em relação   moral seria possível e não haveria modo de se decidir disputas entre indivíduos; nenhuma defesa de um ponto de vista moral particular seria possível na ausência de algum ponto de referência&nbsp;absoluto.</p>
<p>Mas tudo isso se baseia em certas assunções discutíveis do moralista teístico – assunções que são freqüentemente produto de analogias falaciosas. Será meu objetivo aqui dar uma boa olhada nestas assunções. Tentarei demonstrar a verdadeira fonte da qual estes valores são originalmente derivados, apresentar uma sólida fundamentação para um sistema moral de base humana (humanístico), e então colocar sobre o teísta o ônus de justificar qualquer ponto de partida&nbsp;proposto.</p>
<h3>Leis e&nbsp;Legisladores</h3>
<p>De modo impensável, as pessoas freqüentemente assumem que o Universo funciona de modo similar  s sociedades humanas. Eles percebem que humanos são capazes de criar ordem através da criação leis e do estabelecimento de meios de coerção. Deste modo, quando vêem ordem no Universo, imaginam que esta ordem teve origem similarmente humana. Este ponto de vista antropomórfico é um produto do natural orgulho que seres humanos têm de sua habilidade de inserir significado em seu mundo. Ironicamente, é um sutil reconhecimento do fato de que seres humanos são realmente a fonte dos valores e, conseqüentemente, que qualquer conjunto valores “superior” que puder ser colocado acima dos objetivos humanos comuns deve emanar de uma fonte análoga, mas superior, a seres humanos comuns. Em suma, valores super-humanos devem ser proporcionados por um super-humano – não havendo outro modo de se realizar tal&nbsp;feito.</p>
<p>Mas, enquanto tal ponto de vista antropomórfico é uma hipertrofia da auto-estima humana, também é evidência de uma certa falta de imaginação. Por que razão a única fonte de valores morais superiores precisa ser algo super-humano? Por que não é algo totalmente estranho e incompreensivelmente&nbsp;superior?</p>
<p>Alguns teólogos de fato alegam que seu deus é realmente incompreensível. Entretanto, mesmo assim, eles falham em evitar analogias humanas, e usam termos como “legislador”, “juiz”, e assim por diante. Claramente, a imagem que emerge da filosofia moral religiosa e até de alguma secular é que, assim como leis convencionais requerem um legislador, a moral requer uma fonte última da&nbsp;moralidade.</p>
<p>Uma assunção relacionada e discutível é a de que valores morais, para que tenham autoridade, devem possuir uma origem exterior aos seres humanos. Novamente, surge a analogia das leis, dos juízes e da polícia. Na vida diária, obedecemos leis aparentemente criadas por outros, julgadas por outros e sustentadas por outros. Por que leis morais deveriam ser&nbsp;diferentes?</p>
<h3>Assunções&nbsp;Falaciosas</h3>
<p>Quando se diz que um legislador é necessário para cada lei, o resultado é uma série infindável, visto que alguém precisa ser o legislador das leis do legislador. Devido a tal série ser desconfortável a filósofos morais e teólogos, em certo ponto eles declaram que “a série para aqui”. Eles argumentam em favor de um legislador último, de alguém que não possui outrem para fazer-lhe leis. E como isso é feito? O argumento é que a série precisa parar em algum lugar, e um deus sobrenatural é visto como um ponto de parada melhor que qualquer&nbsp;outro.</p>
<p>Mas ainda assim a questão pode ser feita: “De onde Deus tira seus valores morais?”. Se Deus tira-os de uma fonte ainda mais elevada, a série não foi interrompida, e estamos de volta   nossa interminável sucessão. Se forem originadas em Deus, então a moral de Deus é inventada e, portanto, arbitrária. Se a analogia deve ser usada para estabelecer Deus como a origem da moral porque toda a moral precisa de uma fonte inteligente, então, infelizmente – para o teístas –, a mesma analogia deve ser utilizada para demonstrar que, se Deus cria a moral “do nada”, Deus está sendo exatamente tão arbitrário quanto seres humanos que fazem esta mesma coisa. Como resultado, não temos qualquer vantagem e, portanto, filosoficamente, não temos mais motivos para obedecer   moral arbitrária de Deus do que temos para obedecer   moral estabelecida por nosso melhor amigo ou mesmo por nosso pior inimigo. Arbitrário significa arbitrário, e a arbitrariedade de nenhum modo é removida fazendo-se do moralista arbitrário um ser sobrenatural, onipotente, incompreensível, misterioso ou com qualquer outra característica comumente atribuída a Deus. Então, neste caso, se Deus existe, os valores de Deus são apenas as opiniões de Deus e não precisam necessariamente dizer respeito a&nbsp;nós.</p>
<p>Enquanto esta primeira assunção – a necessidade de um legislador – falha na pretensão de resolver o problema, a segunda assunção – a de que a origem dos valores morais deve ser exterior aos seres humanos – de fato representa um obstáculo   busca por uma resposta. A segunda assunção baseia-se na superficial consciência de que leis parecem ser impostas a nós de fora para dentro. E disso segue-se que há necessidade de uma imposição externa de valores morais. Mas o que não raro esquece-se é que estas leis humanas que aparentemente são importas externamente são, na verdade, pelo menos no mundo ocidental, produto de um processo democrático. Elas são as leis dos governados. E, se é possível que pessoas desenvolvam leis e imponham tais leis sobre elas próprias, então é possível fazer o mesmo com relação   moral. Assim como com as leis, também com a moral; os governados são capazes de&nbsp;governar.</p>
<h3>Um Ponto de Referência&nbsp;Absoluto</h3>
<p>Neste ponto, poder-se-ia perguntar: como é possível que os governados sejam capazes de governar a si próprios? Não estariam eles talvez utilizando um ponto de referência mais elevado, último ou absoluto? Não seriam todas as leis e convenções humanas simplesmente aplicações específicas das leis de Deus?&nbsp;Vejamos.</p>
<p>Suponhamos que eu estivesse dirigindo meu carro e me deparasse com um sinal vermelho. Se desejar virar   direita, é seguro fazê-lo nesta situação, então na maioria dos estados posso proceder sem medo de punição. Mas e se eu fizer isso onde não é legal ou seguro? Então é possível que o policial me multe. O policial – e o sistema de justiça que sustenta a multa – é uma imposição externa a mim? Sim, mas, em última instância, as leis que afetam o tráfego foram feitas por pessoas como eu e podem ser mudadas por mim e por outros trabalhando em conjunto. Logo, a lei que regulamenta como devo operar quando desejo virar   direita num sinal vermelho é uma invenção totalmente humana que visa resolver um problema&nbsp;humano.</p>
<p>Poderia esta convenção humana basear-se numa lei superior   qual eu e outros devemos nos referir? Não vejo como. Nenhum desses veneráveis livros sagrados antigos discutem o virar   direita em sinais vermelhos ou oferecem algum princípio superior a partir do qual todas as leis de trânsito devem ou podem ser racionalmente derivadas. Nem mesmo a regra dourada oferece qualquer referencial aqui, já que ela apenas me diz para obedecer a lei seja esta qual for – se é uma lei, quero que outros a obedeçam. Ela não me diz se virar   direita num sinal vermelho deve ser legal ou não, ou se o sinal de “pare” deve ser vermelho ou roxo, ou qualquer outra coisa útil neste sentido. Quando o problema são leis de trânsito, os seres humanos estão sozinhos, sem nenhum guia sobrenatural ao qual recorrer para ajudá-los a formular as melhores leis de&nbsp;tráfego.</p>
<p>(Isso, entretanto, não significa que leis de trânsito são totalmente arbitrárias. Elas são, no fim das contas, baseadas em considerações relativas   sobrevivência. Elas existem devido   preocupação humana com a segurança. Como resultado, um número de importantes descobertas da física é levado em consideração na decisão dos limites de velocidade. Os fatos da natureza, neste caso, tornam-se um ponto externo de referência, mas um Deus ainda não figura no&nbsp;processo.)</p>
<p>Agora, por que – se seres humanos supostamente não são capazes de funcionar bem sem uma base externa e sobrenatural para sua conduta – tantas pessoas são capazes de obedecer e impor leis de tráfego? Deveria tornar-se óbvio a partir da observação mais casual que seres humanos são totalmente capazes de criar sistemas e então operar sob suas&nbsp;regras.</p>
<p>Uma vez visto isso, poder-se-ia perguntar que motivos existem para a crença de que seres humanos não podem continuar a operar deste modo no que diz respeito a leis e ensinamentos morais que regulam coisas como trocas e comércio, direitos de propriedade, relacionamentos interpessoais, comportamento sexual, rituais religiosos e o resto dessas coisas que teólogos aparentemente julgam necessitar de uma fundamentação teológica. O simples fato de que antigos e reverenciados livros sagrados fazem pronunciamentos nestas questões e atribuem tais pronunciamentos a princípios morais divinos faz da teologia uma necessidade para a lei e para a moral tanto quanto faria dela uma necessidade ao jogo de basebol se suas regras tivessem aparecido nestas obras antigas <em>(1)</em>. Se podemos obedecer nossas próprias leis de tráfego sem necessidade de bases teológicas ou metafísicas, somos capazes de obedecer nossas próprias regras em outras áreas. Considerações análogas sobre necessidades e interesses humanos, em harmonia com os fatos, podem ser aplicadas em ambos casos para a invenção das melhores leis e regras pelas quais viver. Deste modo, podemos aplicar  s leis o que o astrônomo Laplace disse a Napoleão: no que concerne um deus, nós não temos “nenhuma necessidade dessa&nbsp;hipótese”.</p>
<h3>Lei e&nbsp;Moral</h3>
<p>A lei, entretanto, não é necessariamente a mesma coisa que a moral; há muitas regras morais que não são reguladas por autoridades legais humanas. E então surge a questão de como alguém pode ter um conjunto de princípios morais funcionais se não há ninguém para impô-los. Leis e regras são geralmente criadas para regular atividades que são publicamente observáveis – isso torna a imposição fácil. Mas os arreios de princípios morais são para um cavalo de uma cor diferente. Eles freqüentemente envolvem atos que não são ilegais, mas simplesmente antiéticos, e podem incluir atos que são privados e difíceis de se observar sem invasão de privacidade. A imposição, deste modo, é quase totalmente deixada nas mãos do perpetrador. Outros podem trabalhar as emoções do perpetrador para encorajar culpa ou vergonha, mas não têm qualquer verdadeiro controle sobre sua&nbsp;conduta.</p>
<p>Para resolver este problema, alguns teólogos deram a Deus o atributo de “espião cósmico” e o poder de punir o comportamento antiético que a lei não consegue cobrir – um poder que se estende mesmo para além do túmulo. Assim, mesmo se a arbitrariedade de Deus for concedida, não haveria negação do poder de Deus para amoldar sua vontade. Assim, no grau em que este Deus e este poder fossem reais, haveria um potente estímulo – apesar de não representar uma justificativa filosófica – para que as pessoas comportassem-se de acordo com a vontade divina. E isto no mínimo retiraria a maior parte da incerteza da imposição do comportamento moral, mas não&nbsp;ilícito.</p>
<p>Infelizmente  queles avançando nesta proposta, a existência de tal autoridade não é tão aparente quanto a existência de autoridades humanas que impõem leis públicas. Deste modo, com o objetivo de controlar o comportamento legal, mas imoral, o clero ao longo da história julgou necessário seduzir, bajular, amedrontar e etc, a fim de condicionar seus rebanhos   crença neste árbitro supremo da conduta moral. Eles buscaram condicionar as crianças tanto mais jovens quanto possível. E, tanto com adultos quanto com crianças, eles apelaram   imaginação, pintando, com palavras, imagens das torturas infligidas aos&nbsp;amaldiçoados.</p>
<p>Os Romanos antigos alegavam obter algum sucesso com estas medidas; o historiador antigo Políbios, comparando as crenças gregas e romanas e os graus de corrupção em cada cultura, concluiu que os romanos eram menos inclinados ao roubo porque temiam o fogo do inferno. Por razões como esta, o governador romano Cícero julgou a religião romana como sendo útil, mesmo enquanto a considerava&nbsp;falsa.</p>
<p>Mas seres humanos realmente necessitam de tais sanções para controlar seu comportamento privado? Quase nunca. Pois se tais sanções fossem de importância primária, elas seriam quase sempre usadas por moralistas e pregadores. Mas não são. Atualmente, quando argumentos para comportamento moral são feitos, mesmo pelos pregadores religiosos mais conservadores, raramente apela-se  s punições presentes ou futuras de Deus. O apelo é feito mais freqüentemente a considerações práticas como o bem-estar psicológico, a boa reputação, a satisfação de metas pessoais e a promoção do bem-estar geral. Os apelos são feitos também   consciência e aos sentimentos humanos naturais de simpatia. No cristianismo,  s vezes o medo é substituído pela motivação de se imitar o ideal de Cristo, um método geral estabelecido anteriormente pelo budismo. É significante notar que tais apelos podem influenciar tanto o comportamento do não-teísta quanto o do&nbsp;teísta.</p>
<p>Mas suponha-se que teístas cessassem tais apelos práticos e humanísticos e retornassem a basear toda a pregação moral na vontade de Deus. Uma incômoda ironia iria permanecer: há muitos deuses diferentes <em>(2)</em>. O simples fato de que as religiões em todo o mundo são capazes de promover comportamentos morais similares torna falsa a idéia de que apenas um certo deus é o único “verdadeiro” disseminador da moralidade. Se apenas um dos muitos deuses adorados é real, milhões de pessoas, apesar de comportarem-se moralmente, estão o fazendo sob a influência, inspiração ou ordem do <em>deus errado</em>. A crença no deus “certo”, deste modo, não parece ser muito crítica no que concerne a conduta moral. Alguém poderia até concordar com Cícero e admitir a hipocrisia e obter o mesmo resultado. E quando alguém acrescenta que os não-teístas do mundo mostraram-se tão capazes de comportamentos morais privados quanto os teístas (os budistas oferecerem, talvez, o melhor exemplo em larga escala), então a crença em Deus torna-se uma questão de segunda importância no assunto. Há algo na natureza humana que opera num nível mais profundo que a simples crença teológica, e é isso que serve como o verdadeiro incentivo para o comportamento moral. Assim como com as leis, também com a moral: seres humanos parecem ser totalmente capazes de tomar, eles próprios, decisões sensatas e sensíveis em relação&nbsp;conduta.</p>
<h3>A Origem da&nbsp;Moral</h3>
<p>Mas isto resolve completamente o problema apresentado pelo teísta? De fato, não resolve. Pois ainda pode-se levantar a questão de como é possível a seres humanos comportarem-se moralmente, concordarem sobre regras morais e leis e cooperarem mutuamente na ausência de qualquer ímpeto divino nesta direção. Afinal, não argumentaram todos os filósofos modernos, em particular os filósofos analíticos, que manifestações morais são basicamente expressões emocionais sem base racional? E não separaram eles irrevogavelmente o “deve” do “ser”, de modo que nenhuma fundamentação chega sequer a ser possível? Sob esta ótica, como é possível que seres humanos consigam concordar – não raro até de cultura para cultura – quanto a uma variedade de princípios morais e legais? E, mais importante, como é possível que sistemas legais e morais evoluam ao longo dos séculos na ausência do próprio fundamento racional ou teológico que os filósofos modernos tão eficientemente destruíram? Sem alguma base, algum critério objetivo, não é possível escolher um sistema moral bom em lugar de um ruim. Se ambos são igualmente emotivos e irracionais, são ambos igualmente arbitrários – tornando qualquer seleção entre eles apenas um produto de propensões acidentais ou caprichos pessoais. Nenhuma escolha poderia ser racionalmente&nbsp;defendida.</p>
<p>Ainda assim, aparentemente, apesar deste problema, seres humanos de fato desenvolvem, eles próprios, sistemas morais e legais – e posteriormente os aperfeiçoam. Qual é a explicação? De onde vêm os valores&nbsp;morais?</p>
<p>Imaginemos, por um momento, que temos a Terra sem vida e morta, flutuando num universo sem vida e morto. Há apenas montanhas, rochas, abismos, vento e chuva, mas ninguém em qualquer lugar para fazer julgamentos relativos ao bem ou ao mal. Em tal mundo o bem e o mal existiriam? Haveria qualquer diferença moral se uma rocha rolasse montanha abaixo ou não? Richard Taylor, em seu livro <em>Good and Evil</em>, demonstrou muito bem que a “distinção entre bem e mal não poderia ser nem mesmo teoricamente delineada em um mundo imaginado como destituído de qualquer&nbsp;vida”.</p>
<p>Agora, seguindo o raciocínio de Taylor, adicionemos alguns seres a este planeta. Entretanto, façamo-los perfeitamente racionais e destituídos de quaisquer emoções, totalmente isentos de propósitos, necessidades ou desejos. Como computadores, eles simplesmente registram o que está acontecendo, mas não fazem quaisquer ações a fim de assegurar sua própria sobrevivência ou evitar sua própria destruição. O bem e o mal existem agora? Teoricamente, como visto, não há como. Esses seres não se importam como que acontece; eles simplesmente observam. E, deste modo, eles não têm razão para declarar algo bom ou ruim. Nada importa para eles, e, já que são os únicos seres no universo, nada importa em&nbsp;absoluto.</p>
<p>Entra Adão. Adão é um homem totalmente humano. Ele possui deficiências e, portanto, possui necessidades. Ele possui anseios e desejos. Ele pode sentir dor e prazer, e freqüentemente evita a primeira e busca o segundo. As coisas importam para ele. Ele pode perguntar para uma dada coisa: “Isto é para mim ou contra mim?”, e chegar a alguma&nbsp;determinação.</p>
<p>Neste ponto, e apenas neste ponto, o bem e o mal surgem. Além disso, Taylor argumenta, “os julgamentos deste ser solitário, no que concerne bem e mal, são tão <em>absolutos</em> quanto qualquer julgamento pode ser. Tal ser é, de fato, a medida de todas as coisas: das coisas boas como boas e das coisas más como más&#8230; Nenhuma distinção pode ser feita, em termos deste ser, entre o que é simplesmente bom <em>para ele</em> e o que é bom <em>absolutamente</em>; não há patamares mais elevados de bondade. Pois o que este poderia ser?” À parte dos desejos e necessidades de Adão, há apenas aquele universo morto. E, sem ele, o bem e o mal não poderiam&nbsp;existir.</p>
<p>Imaginemos agora outro ser na cena, um ser que, apesar de possuir muitas necessidades e interesses em comum com Adão, tem algumas leves diferenças. Chamemo-la Eva. Coisas interessantes começam a acontecer neste ponto. Pois, por um lado, duas pessoas com objetivos similares são capazes de trabalhar em conjunto por uma causa comum. Por outro, temos duas pessoas que necessitam compromissar-se reciprocamente a fim de que cada uma seja capaz de satisfazer os desejos únicos do outro. E assim um complexo relacionamento interpessoal desenvolve-se, e regras são estabelecidas para maximizar a satisfação mútua e minimizar os efeitos do mal. Com regras, agora temos o certo e o errado. Deste reconhecimento básico da necessidade de cooperação é que, em última instância, surgem a lei e a&nbsp;ética.</p>
<p>Agora, suponhamos que estas duas pessoas entrem em feroz desacordo quanto ao melhor modo de realizar uma desejada ação. Ambas argumentam, mas não parecem chegar a lugar algum. Então Adão tira uma carta de sua manga. Diz a Eva: “Espere um minuto. Não estamos esquecendo de Deus?” A isto Eva responde: “Quem?” Adão agora procede numa longa explicação sobre como todos os valores morais seriam arbitrários se não houvesse um Deus; sobre como foi Deus quem fez as coisas boas serem boas e as coisas más serem más; e sobre como nosso conhecimento do bem e do mal, do certo e do errado, do moral e do imortal precisa basear-se num fundamento moral absoluto estabelecido no céu. Bem, tudo isto é novo para Eva, e então ela pede a Adão, que parece saber muito a respeito do assunto, para falar um pouco mais detalhadamente sobre estes fundamentos absolutos. E assim Adão inicia outra longa explicação sobre as leis de Deus e as punições de Deus para a desobediência, até chegar   questão que começou toda esta discussão. E, assim, Adão conclui: “Você percebeu Eva, Deus diz que devemos fazê-lo do <em>meu</em> modo!”. Este é o modo através do qual os apelos aos absolutos divinos resolvem disputas sobre questões morais e outros assuntos entre&nbsp;pessoas.</p>
<h3>Pontos de Referência Menos que&nbsp;Absolutos</h3>
<p>Assim, podemos ver que, sem seres viventes com necessidades, não pode haver bem ou mal, e que, sem a presença de mais de um ser vivente, não pode haver regras de conduta. A moral, deste modo, surge da humanidade precisamente porque existe para servir a humanidade. A teologia tenta caminhar para fora deste sistema, apesar de que não há necessidade (além da coerção) de&nbsp;fazê-lo.</p>
<p>Quando teólogos imaginam que seres humanos, sem algum sistema moral teologicamente derivado, estariam sem quaisquer pontos de referência nos quais ancorar sua ética, eles esquecem-se dos seguintes fatores que a maioria dos seres humanos&nbsp;compartilha:</p>
<ol>
<li>Seres humanos normais compartilham as mesmas necessidades básicas de sobrevivência e crescimento. Nós todos pertencemos   mesma espécie e reproduzimos nosso próprio tipo. Assim, não deveria causar surpresa a qualquer um que possamos ter interesses e preocupações&nbsp;comuns.</li>
<li>Sociobiólogos estão aprendendo que importantes comportamentos humanos que parecem transcender as linhas culturais podem estar enraizados nos genes. Assim, muitos dos dispositivos mais básicos da cultura e da civilização poderiam ser da própria natureza da nossa espécie. Certamente a paleoantropologia ajuda a respaldar isso através do reconhecimento de que os hominídeos mais antigos conhecidos demonstram evidências de terem sido animais sociais. E nossas similaridades aos símios atuais envolvem mais que a simples aparência; muito de nosso comportamento é similar também. A existência de certos comportamentos genéticos, deste modo, torna muito menos surpreendente a concordância entre pessoas sobre leis, instituições, costumes e questões morais. Nós, humanos, não somos infinitamente maleáveis, e portanto nossas leis e instituições não são tão arbitrárias quanto se&nbsp;pensava.</li>
<li>A maioria dos seres humanos normais responde com sentimentos similares de compaixão a um dado tipo de evento. Nossos valores não são todos baseados simplesmente no auto-interesse individual ou no egoísmo. Há casos em que nitidamente nosso auto-interesse não seria servido – por exemplo, ao ajudarmos um animal em sofrimento – e, ainda assim, nós respondemos a tal situação e aplaudimos  queles que fazem o mesmo. Essas respostas compassivas naturais são repetidamente encontradas em nossa literatura, instituições e leis. Deste modo fica claro que nossa moral é, em grande parte, um produto de nossas respostas emocionais comuns, conseqüentemente permitindo a nós propor aperfeiçoamentos a esta moral através de apelos aos sentimentos de nossos&nbsp;semelhantes.</li>
<li>Nós compartilhamos o mesmo meio-ambiente planetário com outros humanos. Se adicionarmos o fato de que já compartilhamos necessidades em comum, então nos deparamos com problemas em comum e com prazeres em comum. Compartilhamos experiências similares e, portanto, podemos facilmente nos identificar uns com os outros e compartilhar objetivos&nbsp;similares.</li>
<li>Compartilhamos as mesmas leis da física, e tais leis nos afetam de modos idênticos. Em particular, elas nos afetam quando desejamos fazer algo. Percebemos que todos temos de levar em consideração problemas idênticos quando construímos uma estrutura, planejamos uma estrada ou fazemos uma&nbsp;plantação.</li>
<li>As leis da lógica e da evidência aplicam-se igualmente bem a todos, e assim possuímos meios em comum de argumentar casos e discutir assuntos – meios que nos permitem comparar idéias e chegar a acordos em áreas tão variadas quanto ciência, leis e história. Podemos usar a razão e a observação como uma “corte de apelação” na análise de pontos de vista&nbsp;adversários.</li>
</ol>
<p>Por essas e outras razões, não deveria parecer estranho que seres humanos possam encontrar fatores-comuns nas questões de valores morais sem precisar apelar a – ou mesmo conhecer – um conjunto de regras divinas. De fato, ironicamente, uma vez que regras religiosamente embasadas são trazidas   disputa, especialmente se houver mais de uma visão religiosa presente, quanto mais os argumentos religiosos são usados, menos concordância há. Isto ocorre porque muitos valores embasados teologicamente e religiosamente não se relacionam uns com os outros ou com a verdadeira condição humana ou com a ciência do mundo. Tais valores são defendidos como sendo provenientes de uma fonte “superior”. E, assim, quando esses valores “superiores” entram em desacordo uns com os outros ou com a natureza humana, não há como decidir a disputa, pois o ponto de referência é baseado somente num compromisso de fé feito a algo invisível, não a uma variedade de experiências em&nbsp;comum.</p>
<p>Portanto, são os valores teológicos – e não os orientados em função do homem – os mais infundados. Pois, com valores teológicos, um arbitrário “pulo de fé” precisa ser dado em algum ponto. E, uma vez dado este “pulo arbitrário”, todos os valores derivados são tão arbitrários quanto o “pulo de fé” que os tornou&nbsp;possíveis.</p>
<h3>O Ônus da&nbsp;Prova</h3>
<p>Portanto, não é o humanista que precisa oferecer uma explicação para os valores. Que explicação poderia ser necessária para o fato de que pessoas naturalmente buscam interesses humanos e, deste modo, relacionam as leis e instituições  s preocupações humanas? Apenas quando alguém busca divergir-se do ponto de vista mais natural que quaisquer questões precisam ser levantadas. Apenas quando alguém fixa uma lei mais elevada que aquilo que é bom para humanidade que dúvidas precisam ser expressas. Pois é aqui que uma explicação ou justificativa de uma base moral faz sentido. O ônus da prova pertence  quele que diverge do modo habitual de se derivar os valores morais — não  quele que continua a manter sua moral, leis e instituições relevantes, úteis e&nbsp;democráticas.</p>
<h4>Notas:</h4>
<ol>
<li>O basebol também é um caso útil neste ponto. Suponham que eu esteja jogando basebol e tenha três “strikes” contra mim. O árbitro me da um “out” e então preciso deixar a placa. Isso, aparentemente, é uma imposição externa. Mas as regras do jogo foram inventadas de modo totalmente arbitrário por pessoas como eu, e entrei no jogo com a tácita concordância de que jogaria de acordo com tais regras. Portanto, essas regras não passam de uma convenção humana, não possuindo ou necessitando de qualquer base metafísica ou teológica. Ainda assim, vejo que os outros jogadores facilmente curvam-se a elas,  s vezes de modo bastante “religioso”. Esta última situação sugere que seres humanos são uma espécie inerentemente criadora de&nbsp;regras.</li>
<li>Pessoas de outros credos, continuando a pregar a vontade de outros deuses, encontrariam a si próprias moralmente beneficiadas essencialmente do mesmo modo que os&nbsp;cristãos.</li>
</ol>
<h3>Comentários&nbsp;adicionais</h3>
<h4>Educação&nbsp;Moral</h4>
<p>No grau em que os pontos no artigo acima são conscientemente ou inconscientemente compreendidos, torna-se possível formular diretamente modos mais funcionais de promover o comportamento moral. Isto é, quando as pessoas concordam quanto a como os valores humanos são de fato derivados, então são mais capazes de estimular áreas relevantes e desenvolver um currículo de educação moral que pode mostrar-se progressivamente útil e&nbsp;eficiente.</p>
<p>Em particular, compreendendo-se que a sobrevivência de nossa espécie é um interesse comum, e que compartilhamos necessidades comuns   sobrevivência, podemos fazer grande progresso no sentido do crescimento da cooperação. E somos assim mais bem capacitados a educar outros sobre fatores relevantes   sobrevivência, tais como saúde e&nbsp;higiene.</p>
<p>O estudo da antropologia e da biologia nos ensina sobre nossa interconexão entre variadas culturas humanas e entre todo o reino animal, e através disso conseguimos aprender coisas sobre nós mesmos que promovem o desenvolvimento de nossa ética, moral e sistemas legais. Tais sistemas, quando derivados deste modo, vão de encontro  s nossas necessidades mais eficientemente e reduzem a&nbsp;discussão.</p>
<p>Por compartilharmos sentimentos comuns, o papel da educação moral não precisa se limitar somente ao enfoque de regras de conduta úteis e práticas. É habilitada a voltar-se também ao desenvolvimento de emoções construtivas. Por exemplo, a compaixão é nutrida e desenvolvida através de programas educacionais onde estudantes têm oportunidade de experimentar como é ser paralítico, cego ou surdo. Uma boa parte da compaixão parece ser a habilidade de se identificar com aqueles que sofrem – assim, esta habilidade, se mais bem desenvolvida, pode possibilitar   sociedade a produção de uma geração de indivíduos jovens que são mais respeitosos aos direitos do próximo, mais prestos em situações que evocam um comportamento altruístico e mais justos em suas relações com pessoas em&nbsp;geral.</p>
<p>A ciência que proporciona um conhecimento mais elaborado de nosso mundo permite-nos tomar decisões mais informadas sobre o trato com nosso meio-ambiente. Deste modo práticas e leis racionais tornam-se mais&nbsp;prováveis.</p>
<p>Educação em lógica e outros aspectos do raciocínio permite  s pessoas analisar melhor as situações e chegar a decisões menos preconceituosas em questões&nbsp;políticas.</p>
<p>Em suma, uma educação liberal parece proporcionar um excelente treinamento moral, pois oferece o conhecimento e a sofisticação necessários para dar continuidade ao processo de tentativa-e-erro cuja finalidade é encontrar melhores modos para se viver e&nbsp;cooperar.</p>
<h4>Ética&nbsp;Situacional</h4>
<p>Visto que o processo de aperfeiçoamento da ética <strong>é</strong> o da tentativa-e-erro, então faz sentido que se mantenha os princípios éticos flexíveis. Afinal, se um dado princípio é rígido e absoluto, ele tende a nutrir um tipo de idolatria onde pessoas adoram a regra em vez do objetivo desta. Já que o bem e o mal, em última instância, são julgados na perspectiva da necessidade e interesses humanos, então apenas faz sentido que todos princípios morais trabalhem no sentido de satisfazer necessidades humanas e servir aos interesses humanos — em oposição a tornarem-se um fim neles&nbsp;mesmos.</p>
<p>Em contrapartida, acreditar que valores morais vêm de Deus tem inspirado muitos através da história a praticar idolatria com princípios&nbsp;morais.</p>
<p>Por exemplo, num esforço para seguir o mandamento de guardar o sábado santo (dia no qual a Bíblia especificamente declara que ninguém deve trabalhar – incluindo escravos ou animais), muitos apoiaram as leis de fechamento para o domingo. Entretanto, mesmo quando tais leis estão vigorando, serviços vitais – como o médico e o policial – são mantidos em operação. Uma prática verdadeiramente absoluta deste mandamento requereria que <em>também</em> esses serviços fossem fechados por um dia. Esta inconsistência é claramente fruto das verdadeiras necessidades humanas, que se tornaram, na prática, mais importantes que a regra absoluta. Assim, uma posição tanto consistente quanto moral seria abandonar as leis de fechamento dominical como um todo – tais leis sendo, na melhor das hipóteses, inúteis, e, na pior,&nbsp;perniciosas.</p>
<p>O simples mandamento “Não matarás” admite numerosas exceções, as quais os crentes prontamente apóiam, como a autodefesa, o assassinato de animais, o assassinato de germes e assim por diante. A re-tradução do mandamento para “Tu não cometerás assassinato” não resolve o problema porque o mandamento falha em definir “assassinato”, que, em linguagem vulgar, significa praticamente qualquer forma de assassínio que venha a ser ilegal. Por este critério, o aborto, não sendo legalmente declarado como assassinato, não poderia constituir uma transgressão deste mandamento. Assim, não há qualquer surpresa no fato de que diferentes denominações de cristãos e judeus interpretam diversamente este mandamento a fim de permitir ou proibir a pena de morte, a vivissecção, a guerra, a autodefesa, o aborto, a eutanásia e a vacinação. Uma simples regra de nunca matar não pode ser seguida, e o resultado é sempre um catálogo dos casos em que é e dos casos em que não é lícito tirar uma vida. Isto é, com efeito, ética situacional, significando que a regra de fato já foi&nbsp;abandonada.</p>
<p><q>Não roubarás</q> é uma regra similar. Não é praticada de modo absoluto também. Por exemplo, em tempo de guerra, e mesmo de paz, segredos nacionais são constantemente roubados de uma nação por agentes de outra como parte de um esforço para promover a segurança. Todos esses roubos são apoiados freqüentemente pelos crentes deste mandamento. Ademais, poderíamos perguntar se cleptomania constitui uma quebra deste mandamento, visto que poderíamos ser solicitados a desculpar a ação sob a escusa da enfermidade&nbsp;emocional.</p>
<p>Mas o problema mais gritante de sistemas absolutistas como os Dez Mandamentos é que, quando há mais de uma regra absoluta, torna-se possível o surgimento de conflitos entre elas. Assim, poder-se-ia perguntar se é algo apropriado assassinar para prevenir um roubo. É permitido roubar para prevenir um assassinato? Deveríamos mentir se tivéssemos uma boa razão para acreditar que a verdade faria com que o indivíduo morresse de ataque cardíaco? É apropriado mentir para evitar ser assassinado? É lícito quebrar o sábado santo para salvar a vida de alguém? Seria correto roubarmos um carro se soubéssemos que isso evitaria que seu dono trabalhasse no sábado santo ou matasse alguém? Deveríamos honrar a vontade de nossos pais se eles nos pedissem para quebrar algum dos outros mandamentos? Deveríamos roubar nossos pais se, ao fazê-lo, talvez estivéssemos prevenindo um assassinato? Todos tipos de dilema como esses são&nbsp;possíveis.</p>
<p>Isso demonstra que não podemos viver baseados em princípios absolutos e abstratos. Precisamos relacioná-los   vida e  s necessidades humanas – e os nossos melhores juízes e júris fazem exatamente isso. Aqui é onde entra a compaixão humana. Esta é a razão pela qual existem dentro da lei vários graus de assassinato, e por que o motivo é uma questão de tamanha importância no julgamento das penalidades&nbsp;criminais.</p>
<p>Tais práticas são sensatas porque a natureza do mundo não se curva facilmente a determinações bipolares do tipo “ou isto ou aquilo”. As coisas admitem graduações. A moral absoluta tenta ignorar tais distinções. Aplicar o que talvez poderia ser denominado um sistema moral “digital” (sim, não) em um mundo “análogo” só poderia resultar numa pobre funcionalidade. Estes dois não se misturam bem. É claro, leis do tipo “ou isto ou aquilo” <em>de fato</em> existem em áreas como a do tráfego automotivo. Isto porque provaram ser úteis por serem fáceis de recordar quando uma ação reflexa é uma necessidade comum. Mas leis de trânsito inapropriadas <em>foram</em> alteradas quando se mostraram ineficazes. Eu diria que o princípio da anulação é um serviço de longo-alcance da humanidade – e isto é verdadeiro até quando pessoas aplicam o que eles imaginam ser padrões&nbsp;“absolutos”.</p>
<p>Em suma, não há nada a ser temido com a perda do absoluto. Ele nunca existiu realmente. O caos não reina. Em vez disso, esforços de tentativa-e-erro têm aperfeiçoado as leis, tornado as instituições mais eficientes e adaptado os princípios morais melhor   continuada sofisticação do conhecimento humano. As genuínas necessidades e preocupações humanas que conduziram   formulação dos Dez Mandamentos e outros supostos absolutos também abasteceram sua sofisticação dentro de nosso vasto corpo de mutáveis leis e princípios&nbsp;éticos.</p>
<h4>O&nbsp;Objetivo</h4>
<p>Quando percebemos que o certo e o errado não podem existir sem seres com necessidades, e que seres humanos provaram ser capazes inventar e depois aplicar suas próprias regras, então não há mais qualquer modo de negar que a busca dos interesses humanos – para os indivíduos e para a sociedade, em curto e longo prazo – é o grande objetivo das leis e da&nbsp;ética.</p>
<p>Ademais, isso não necessita realmente de uma explicação ou justificativa, exceto  queles que perderam de vista o verdadeiro fundamento de seus próprios valores. Isto é, ninguém precisa explicar por que busca seus próprios interesses, e nenhum planeta de pessoas precisa explicar por que busca perpetrar objetivos comuns. Apenas quando pessoas tentam divergir desta perspectiva simples e natural, apenas quando alguém fixa uma lei superior ao bem-estar da humanidade, é que questões precisam ser levantadas – pois é apenas <em>então</em> que uma explicação ou justificativa de uma base moral faz-se&nbsp;necessária.</p>
<div class="textinfo"><strong>Autor:</strong> Frederick Edwords<br />
<strong>Tradução:</strong> <a href="http://fernandosilva.multiply.com/">Fernando Silva</a></div>
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		<title>Saindo do Armário: a Assunção do Ateísmo</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jan 2007 23:14:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alenônimo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>

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		<description><![CDATA[“Sair do armário” é um termo associado a gays e lésbicas que anunciam sua homossexualidade ao mundo. Poucos se arrependem, pois nisso encontram um modo aberto e satisfatório de&#160;viver.
Mas há outro “armário” escondendo uma minoria discrepante: os ateus. Muitos deles mantêm, como os gays de décadas passadas, suas opiniões escondidas por serem avessos a confrontos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Sair do armário” é um termo associado a gays e lésbicas que anunciam sua homossexualidade ao mundo. Poucos se arrependem, pois nisso encontram um modo aberto e satisfatório de&nbsp;viver.</p>
<p>Mas há outro “armário” escondendo uma minoria discrepante: os ateus. Muitos deles mantêm, como os gays de décadas passadas, suas opiniões escondidas por serem avessos a confrontos ou por medo de reações hostis.<span id="more-3"></span></p>
<p>Não podemos continuar assim. O Direito Cristão, com sua infindável missão, moveu esforços sem paralelos a fim de cristianizar o país. Usando a legislação, emendas constitucionais e publicidade, o direito religioso engajou-se numa guerra de palavras e difamação contra seus maiores inimigos: a lógica e a obviedade do ateísmo. A Bíblia chega a proibir o contato com ateus (<a href="http://www.bibliacatolica.com.br/01/54/6.php"><em>Cf. II Coríntios 6</em></a>), o que evita o surgimento de debates e previne a incursão da lógica não-religiosa no “rebanho”. Comportamentos similares são vistos em cultos religiosos, onde os novos membros são proibidos de contato até mesmo com sua família caso ela não seja pertencente ao&nbsp;grupo.</p>
<p>Como resultado desse esforço difamador, os ateus são aviltados e vistos como indivíduos anárquicos e anti-religião, que desejam aniquilar o direito que as pessoas têm de professar suas crenças. Apenas uma pequena parte dos ateus são abertos sobre seu ateísmo e, como resultado, aparentamos constituir uma parcela muito menor do que realmente somos. Em outras palavras: os legisladores estão dando menos importância a nós do que deveriam, o Direito Cristão está&nbsp;vencendo.</p>
<p>O objetivo deste artigo é ajudar a reverter o processo criado por aqueles que se opõem ao livr