No Capítulo 12 deste Pequeno Manual comentamos que entender um grupo é descobrir sua unidade a partir de sua diversidade, seguindo com a discussão sobre o que torna os crentes difíceis de ser entendidos pelos que não o são.
Tratamos neste do que torna os crentes difíceis de ser entendidos pelos que o são.
Apartados da unidade na Babel de suas dispersões, se confundem na falta da linguagem única que lhes permitiria se compreender entre si como um só povo.
A dispersão é intrínseca ao protestantismo, que surgido da Reforma contra o centralismo teológico e administrativo da Igreja Católica Romana, nunca conseguiu substituir aquele centralismo por outro fator de unidade capaz de equilibrar o potencial dispersor da sola scriptura.
O efeito é a fragmentação do protestantismo em dezenas de milhares de denominações, divididas em centenas de milhares de facções também subdivisíveis até chegar ao fiel individual, que em última instância tem autoridade reconhecida por sua própria igreja para interpretar a Bíblia por si só.
Dada esta prerrogativa, basta o exegeta solitário convencer mais um ou dois de que sua leitura bíblica é melhor que as alternativas e obterá quórum para fundar uma nova assembléia divinamente assistida, conforme interpretação de Mateus 18: 20.
A dinâmica da dispersão dos crentes é análoga à das mitoses celulares. Nestas as divisões internas no núcleo da célula terminam por criar uma nova.
Do mesmo modo, as divisões internas no núcleo de igrejas crentes resultam em novas igrejas, variantes “renovadas” ou “independentes” da denominação-mãe.
Nas mitoses denominacionais, líderes de uma congregação estabelecida decidem partir para carreira solo e fundam nova, e própria, igreja, contando com sua capacidade de transferir para a recém fundada parte expressiva dos fiéis que se alinhavam com ele na antiga.
Algo semelhante ao que acontece no mundo corporativo, quando um bom vendedor muda de empresa e leva para a nova parte dos clientes que atendia.
Se a diversidade dos crentes é absoluta e evidente, sua unidade é relativa e difusa.
Sua identidade comum como cristãos reformados que têm a Bíblia como regra de Fé e prática é requerida por uma miríade de agremiações cujos extremos têm pouquíssimo em comum, tanto no aspecto teológico-doutrinário quanto no sócio-comportamental de orientação religiosa.
Uma resultante desta somatória das dispersões são os chamados estereótipos.
Estereótipos não são, necessariamente, generalizações falsas sobre determinado grupo. Antes tendem a ser generalizações que fixam aspectos do grupo que atraem mais atenção, em detrimento de outros mais sutis e representativos da identidade, que podem passar despercebidos.
No caso dos crentes, o estereótipo mais comum é a imagem pública dos pentecostais dos anos 1950 a 1970: homens e mulheres em roupas sisudas, de Bíblia embaixo do braço, obedientes às proibições congregacionais ao consumo de álcool, fumo, jogos, cinema, televisão, música e dança secular e, claro, sexo fora do casamento.
Tal estereótipo, mesmo reconhecido como tal, nunca correspondeu às facções não pentecostais. Com o tempo a maioria dos pentecostais também abrandou suas regras de usos e costumes, revogando exageros como a associação da virtude feminina à preservação e comprimento de seus pelos corporais.
A partir dos anos 1980, a ascensão do neopentecostalismo atraiu multidões de neófitos com promessas de um evangelismo popular, curas milagrosas, prosperidade financeira e cultos animados, sem impor aos seus membros a disciplina rigorosa que homogeneizava seus pares pentecostais.
Junto com a explosão dos neopentecostais se deu a implosão do estereótipo crente. Quanto mais vertiginosamente cresciam em número, menos se destacavam na paisagem, restando a Bíblia sob o braço como último sinal da tribo.
Como entender um grupo é descobrir sua unidade a partir de sua diversidade, superada a referência fácil — e pouco acurada — do estereótipo, a busca da unidade explicativa se dirige aos citados aspectos mais sutis que melhor representariam o que procuramos entender.
Se, no geral, os crentes de fato declaram rejeitar o que é “do mundo”, se medem por uma hierarquia espiritual, proclamam rejeitar o Homem natural, se submetem ao julgamento de sua congregação, relevam contradições que conflitam suas crenças, compartilham mitos, ritos e símbolos, se crêem transformados e nascidos de novo, então este próprio Pequeno Manual reconhece neles uma identidade comum.
O aspecto sutil é que enquanto os fatores de dispersão são intrínsecos à miríade de micro-culturas e sub-culturas dos crentes, seu principal fator de coesão provém de uma cultura que lhes é extrínseca: a da Igreja Católica Apostólica Romana.
Cristãos reformados são, historicamente, cristãos não católicos.
Daí uma das poucas coisas — talvez a única — com que praticamente todas as denominações e facções crentes concordam entre si é que não importa que o livre exame possa produzir infinitas interpretações da Bíblia, desde que em questões estratégicas difiram do magistério católico o suficiente para salvaguardar sua identidade.
A dispersão dos crentes pode incluir doutrinas tão díspares entre si como o calvinismo fundamentalista e a teologia da prosperidade, cujos adeptos de cada qual constantemente acusam o outro de heresia ou falta de espiritualidade, mas, tacitamente, se reconhecem como posicionados no mesmo lado da cerca que divide os cristãos.
Para o crente, cruzar esta fronteira significa deixar de sê-lo.
Ou seja, dentro dos elásticos limites da interpretação bíblica, as doutrinas, regras e costumes dos crentes podem seguir qualquer caminho, menos os que levam a Roma.
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