Greene, The Great

Não é fácil para quem não é religioso conhecer o complexo que envolve os sentimentos próprios dos que o são. Para quem tem algum interesse, há pelo menos três caminhos para se aprofundar um pouco no tema: se convertendo (caso a curiosidade seja realmente muito grande), vendo, ouvindo e aprendendo ou lendo Graham Greene.

Greene é o máximo. Certamente meu autor contemporâneo preferido.

Nascido na Inglaterra, em uma família protestante, Henry Graham Greene converteu-se na juventude ao catolicismo após uma adolescência problemática. Estudou em Oxford onde descobriu a metafísica que tece a realidade onde suas histórias se passam.

Discussões sobre religião costumam se dar no âmbito filosófico, teológico ou doutrinário, que abrangem questões intelectuais sobre preceitos e premissas de cada fé. Quando as discussões se dão entre religiosos e céticos, têm-se normalmente um debate retórico, que vez por outro resvala o dialético quando os debatedores são competentes. Nenhum debate intelectual pode esclarecer o interlocutor não crente sobre os sentimentos mais sutis que influenciam a crença religiosa, se o descrente em questão nunca pertenceu ao outro lado.

Para além deste tipo de debate, Greene funciona como uma espécie de Virgílio ao contrário. Assim como o poeta romano guiou Dante pelo seu mundo pagão, representado na Divina Comédia pelo limbo do inferno, o escritor inglês nos coloca dentro do universo moral cristão através dos conflitos íntimos e dúvidas que atormentam seus protagonistas, sempre envolvidos na busca por algum tipo de fé, embora o objetivo da busca seja óbvio para o leitor, não para o personagem.

Não torçam o nariz aqueles que desconhecem seus livros e montaram precipitadamente a idéia de que possam ser romances enfadonhos, com narrativas arrastadas cheias de moralismo religioso.

O leitor menos atento de O Fator Humano, por exemplo, no mínimo encontrará uma excitante história de espionagem, tão boa ou melhor que os clássicos de John Le Carré. Conhecimento para tal não faltava a Carré ou a Greene, já que ambos trabalharam para o mítico MI6, o mesmo serviço de inteligência britânico que Ian Fleming — também veterano da inteligência naval — escolheu para dar a James Bond os dois zeros que traduzem a permissão para matar do personagem.

Ninguém, portanto, pode achar de autor tão bem entrosado em grupo com tais currículos que seus livros sejam chatices carolas.

Mas O Fator Humano é muito mais que uma história de espionagem, que na verdade é apenas o pano de fundo para a apresentação de um conflito de consciência entre a lealdade e a moralidade. O protagonista, agente inglês que toma conhecimento de uma operação secreta de seu governo envolvendo uma abominável — mas nunca explicitada — negociação com o regime de Apartheid da África do Sul, se divide entre dois conceitos de certo e errado. O brilhantismo está na quebra do maniqueísmo, uma situação onde as opções eram trair seu país ou colaborar com uma conspiração sinistra. Qualquer que fosse a escolha, a paz de espírito do personagem estaria perdida para sempre. Sem chance de redenção dentro de seu próprio mundo.

Para amplificar a angustia sentida pelo agente, Greene ressalta o fardo do silêncio imposto sobre ele. Obrigado a tratar a operação como secreta, o protagonista é privado do alívio de discutir com outros seu dilema. Num momento desesperado, procura uma igreja católica — mesmo sendo um descrente — esperando apenas que o padre o ouça e guarde segredo, como mandam as regras do confessionário romano. Seu diálogo dura apenas o tempo suficiente para o sacerdote descobrir que o estranho não seguia nenhuma religião, após o que praticamente o expulsa.

As leituras possíveis para aquela cena notável são muitas e claras. Todas ótimas.

O conflito não maniqueísta é tema central de outros livros, como O Coração da Matéria e Fim de Caso, mas aparece mesmo naqueles com tom de comédia, como O Cônsul Honorário e Nosso Homem em Havana.

A obra sempre lembrada como a visão de Greene sobre a relação entre conflitos interiores e religiosidade é O Poder e a Glória, do qual comprei um exemplar de edição antiga em um sebo há muitos anos e até hoje não tive coragem de tirar o filme plástico protetor.

Mas o meu preferido dentro do assunto em pauta aqui é Monsenhor Quixote, uma pequena obra-prima com que Graham nos brindou na fase final de sua carreira e de sua vida.

Na história, a dupla Dom Quixote de La Mancha e Sancho Pança, de Cervantes, é recriada no singelo mundo de Monsenhor Quixote. Tal qual o Cavaleiro da Triste Figura, que só em uma fantasia de cavaleiro andante de tempos passados conseguia exercitar as virtudes que sua época abandonava, o clérigo milita numa igreja que existe apenas na pureza de seu coração, que não enxerga as políticas que regem a instituição a qual serve. Seu companheiro, o prefeito comunista da cidade, tal como o escudeiro Sancho, é seu contraponto com a realidade. Da interação dos dois, Greene pinta uma bela paisagem sobre a natureza humana.

Greene is really The Great.

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