Os religiosos cristãos responderão que vingou porque tinha que vingar, uma vez que Jesus era o Messias, filho de Deus, nada mais óbvio do que a religião por ele lançada tenha sobrevivido e se expandido universalmente. Esta resposta é insatisfatória por um motivo básico, dentre outros possíveis.
Jesus de Nazaré em pessoa converteu muito pouca gente. Na Palestina onde ele viveu e pregou, os judeus continuaram judeus. Atribuir o sucesso do cristianismo ao testemunho dos milagres ou outros eventos divinos atribuídos ao nazareno esbarra neste fato.
A tradição confere a Pedro e Paulo a iniciativa de levar a mensagem de seu mestre ao coração do Império Romano. Roma convertida — Império convertido, Cristianismo vitorioso.
Mas por que os romanos se converteram ao cristianismo?
Pedro e Paulo, por mais convincentes que fossem, eram dotados de recursos mínimos e disputavam espaço com muitos concorrentes que tinham tanta certeza de estarem pregando a verdadeira fé quanto os proselitistas cristãos. O fato é que Pedro e Paulo conseguiram. Roma se tornou cristã, o Império Romano se tornou cristão e o Ocidente se tornou cristão — mas de novo, por quê?
O Cristianismo primitivo era muito diferente do conhecido hoje, desprovido do requinte teológico que lhe foi conferido ao longo de dois milênios. Assim, a pregação de Pedro e Paulo deveria soar como tolices simplórias e piegas nos ouvidos dos romanos instruídos na tradição dos clássicos gregos e da poesia de Virgílio.
Se é difícil supor que um romano culto desse atenção a pregadores judeus que falavam da divindade de seu rabino morto, é muito possível aceitar que tal resistência não ocorreu entre as camadas pobres e incultas da população romana livre (lembrando que parcela significativa dos habitantes de Roma era composta de escravos, que não possuíam qualquer identidade política, social ou religiosa).
Pobres e incultos eram numerosos na Roma Imperial, mas pouco influentes para mudar os destinos da Cidade Eterna exceto por uma característica: Era nesta população pobre e inculta que Roma recrutava seus legionários. Portanto, se a mensagem cristã penetrasse entre os soldados, ela seria levada diretamente para todo o corpo das legiões do Império. Quando a voz do cristãos passou a ser ouvida não mais das catacumbas, mas dos acampamentos militares, tornou-se claro que o sucesso do Cristianismo seria questão de tempo.
É certo que muitos fatores contribuíram para que o Cristianismo chegasse condição de religião oficial de Roma. A própria e tão falada decadência dos valores romanos abriram uma brecha por onde a mensagem de Pedro e Paulo — mais do que a de Jesus — pode penetrar.
Mas é interessante considerar que os mesmos legionários que crucificaram Cristo foram, tempos depois, os personagens decisivos para consolidar a religião que ele criou e levá-la posição que possui hoje no mundo ocidental.