Religião e Utopia

Desde que sir Thomas More chamou de Utopia o local da fictícia e perfeita sociedade por ele imaginada, que o termo é utilizado para dar nome aos modelos sociais desenvolvidos por ideologias diversas.

O grande experimento deste tipo, o socialismo marxista, que prometia construir um paraíso comunal, guiado pela luz da História e pela igualdade de um mundo sem classes, deu no que deu.

Neste, como em outros casos, os fracassos são explicados não pelas inconsistências ou ambições exageradas do modelo, mas sim pela desculpa que o modelo — embora perfeito — não fora corretamente implementado.

Esta resistência em admitir que o fracasso da experiência prática possa advir das inconsistências do modelo idealizado é comum na religião, ou pelo menos nas grandes religiões.

Sempre ouvimos cristãos no Ocidente reclamando da falta de “virtudes cristãs” na sociedade, como se a sociedade em que vivem não fosse constituída, por absoluta maioria, justamente de cristãos. Não duvido que no Islã, a julgar pelos relatos, ocorra situação correspondente.

Não vivemos apenas num Ocidente de maioria cristã. Vivemos num Ocidente em que os cristãos são maioria há mais de mil e quinhentos anos, sendo que as diversas Igrejas e instituições religiosas exerceram papel preponderante na formatação das sociedades atuais. Isto vale também para o Islã.

No entanto, toda vez que as mazelas destas sociedades são expostas, ouvem-se religiosos se referirem a elas como se ainda estivéssemos no século I, com os leões esperando ansiosos que o próximo seguidor do Nazareno fosse servido.

Quando levantamos esta questão — do fracasso dos modelos religiosos em erigir sociedades verdadeiramente fraternas, para um cristão ou para um muçulmano, com freqüência recebemos a resposta: É que as pessoas não praticam a verdadeira religião. Se o Cristianismo (ou Islamismo) fosse praticado como Jesus (ou Mohamed) ensinou, tudo seria diferente.

Ou seja, chegamos à exata mesma justificativa dos marxistas: Se o verdadeiro socialismo, como ensinado por Karl Marx, tivesse sido implementado, tudo seria diferente.

O problema é que após mais de quinze séculos, ainda tem gente que prefere esperar pelo dia em que a “verdadeira religião finalmente triunfará” do que aceitar que após tanto tempo, esta mais do que provado que a religião (ou qualquer outra ideologia) é incapaz de formatar o indivíduo, quanto mais a sociedade. Ou seja, as pessoas não são melhores (ou piores) por serem religiosas e as sociedades não se tornam melhores por serem de maioria religiosa.

Os fundamentalistas cristãos poderão refugiar-se em João 18:36 e dizer que o “Reino de Jesus não é deste mundo”. Só que nem João e nem todos os autores de textos bíblicos impedem os fundamentalistas de meterem o bedelho em tudo que “é deste mundo”, visando submetê-lo aos seus próprios preceitos.

No Islã nem esta desculpa é aplicável, uma vez que o conceito de Din (modo de vida islâmico) se aplica a todos os aspectos da vida pessoal e social, incluindo a política e a estrutura do Estado.

Com Din ou sem Din, o Islã é hoje um fiasco social, e louvar as glórias do passado, como costumam fazer os muçulmanos, em nada muda isto, mesmo porque tais louvores em geral são bastante exagerados, resultantes de comparações do Império Árabe em seu apogeu com a Europa da época, que convenhamos, não era lá essas coisas.

Afirmar que as grandes religiões em nada contribuíram para a melhoria das sociedades em que se instalaram seria preconceituoso e inverídico. Entretanto é certo que os resultados obtidos são muito inferiores aos prometidos pelos seus defensores, sendo fato também que o Ocidente somente produziu as primeiras sociedades que combinaram prosperidade e democracia após estabelecerem a completa separação entre Igreja e Estado.

Assim, não considero incorreto alinhar as grandes religiões a outras Utopias, que prometeram mais do que podiam cumprir.

  • eneas santos costa

    caro pensador,de fato tens razao, a religiao e utopica,mas lhe pergunto o que nessa melancolica existencia nao e? a religiao tem sua funçao social que de narcotizar as mentes pobres,e isto e muito importante,sabe por que? por que nos ateus ficamos sem oferecer uma soluçao para os problemas sociais, seu artigo esta correto,mas de que nos vale a penas criticar, temos que trazer resposta, eneas santos ateu e pos doutor em filofofia e teologia.

    • http://hectonsuport.blogspot.com Hecton

      eneas santos costa,

      Se a religião é “uma bengala” que faz com que as pessoas se ajudem, isso chega a ser problemático, veja bem, se é assim, o que eles vão fazer se perderem essa fé?
      As questões sociais só resolveram quando as pessoas (a massa em geral) obtiverem um grau de instrução necessária para se ter um senso critico “palatável”..enquanto isso ficaremos a mercê das autoridades incompetentes…

      Abraços

    • Maurício

      eneas santos costa,

      por que nos ateus ficamos sem oferecer uma soluçao para os problemas sociais, seu artigo esta correto,mas de que nos vale a penas criticar, temos que trazer resposta,

      Uma única mudança não nos faz enxergar todo o potencial futuro de mudanças. Ao continuarmos avançando em direção às mudanças novos horizontes surgem e isso pode nortear melhor as mudanças vindouras.
      O ateísmo pode contribuir sim e muito para solucionar os problemas sociais, porém as mudanças precisam ser aplicadas, e em um país de maioria cristã é bastante complicado.
      Em um país laico com escolas públicas ministrando aulas de ensino religioso, se você se declara ateu pode perder o emprego, pois a influência da igreja é muito grande.
      Por quê o cristianismo faz a cabeça dos jovens de que o futuro só é possível com cristo se isso já está provado que não é verdade?
      Por quê um político que se declarar ateu em um país de maioria cristã não se elege? (Os cristãos no poder são tão corruptos como qualquer outra pessoa)
      O modelo cristão é realmente uma utopia e luta para se manter no poder. Nessa luta desigual é bastante difícil apontar soluções de impacto que venham a oferecer novas expectativas de solução para os problemas sociais, porém disseminando o ideal ateísta, com o tempo, pequenas mudanças levarão à grandes conquistas.

      Abraço.

  • http://www.percepolegatto.com.br Perce Polegatto

    eneas santos costa

    ficamos sem oferecer uma soluçao para os problemas sociais … temos que trazer resposta.

    Gostei do seu ponto de vista.
    Penso que não propriamente o ateísmo, mas a liberdade de pesquisa que a ciência tem hoje traz muitos benefícios sociais, não vale a pena citar inúmeros exemplos, apenas um, a vacinação.
    Talvez seja algo indireto: libertando a mente das pessoas, a evolução social pode pegar um caminho aí, do ponto de vista político, ideológico etc.

    Há um momento no filme O nome da Rosa em que o aprendiz critica o mestre por não se importar com as pessoas, por não ajudar ninguém. No contexto da narrativa, William de Baskerville é a mente clara, sem superstição, investigativa. Assim, ele responde: “Talvez eu esteja ajudando de outra forma.”
    Abraços.

  • WELLINGTON CARVALHO

    TÁ MAIS QUE PROVADO QUE RELIGIÕES SÓ ATRAPALHARAM E ATRAPALHAM O PROGRESSO DO SER HUMANDO..O HOMEM ACABA SE BITOLANDO EM SERES QUE NUNCA EXISTIRAM E NUNCA EXISTIRÃO..OQUE MAIS SE VE HOJE SÃO PADRES PASTORES E LÍDERES DE QUALQUER SEGUIMENTO RELIGIOSO QUE SEJA USURPANDO DO BOLSO DE QUEM ELES CONSEGUEM ATRAIR..RELIGIÃO HOJE É COMÉRCIO..EXEMPLO MESMO A IGREJA CATÓLICA..VOCE VAI SER ENTERRADO TEM TAXAS..VAI SE CASAR NO RELIGIOSO PAGA AQUELE PREÇO ABSURDO MAIS CARO QUE CARTÓRIO….É SACOS E DINHEIROS NOS CULTOS DA UNIVERSAL DENTRE UMA INFINIDADE DE ACONTECIMENTOS….ISSO TUDO E SO UM PEQUENO EXEMPLO..RELIGIÃO SÓ SERVE PRA TAPAR VAZIO EXISTENCIAL COM VÁCUO…É O HOMEM TENTANDO ACHAR EXPLICAÇOES PRA TUDO ONDE ELE NUNCA VAI ENCONTRAR..

    • vanderlei

      Bom, mas….
      pelo amor da fada sem dentes, escreva em CAIXA BAIXA.

    • Maurício

      Concordo com você Wellington mas não precisa gritar.

      Abraço.