Acho interessante debater com crentes. Eles sempre me fazem pensar, chamam-me a atenção para coisas que ainda não haviam me ocorrido. Assim, eu aos poucos vou percebendo os “buracos” em minha argumentação e os vou preenchendo. Mas eu sei que não vou lhe convencer de nada. Quando a religião entrou em sua cabeça, ela se fechou para qualquer argumento em contrário. Você não desligou o cérebro: ainda é capaz de discutir sobre futebol – e aceitar a opinião dos outros. Ou debater um problema de geometria e também concluir que sua idéia inicial estava errada. Mas, se o assunto for religião, nada o fará mudar de idéia. Você está certo, os outros estão errados. A possibilidade de que você possa ter se enganado lhe parece absurda. Se você se dispõe a debater comigo é porque acha que vai me convencer facilmente. Suas “verdades” são tão “evidentes” que não há como eu não aceitá-las.
Venho debatendo com crentes há anos e concluí que há um “roteiro” comum a todos os casos. Veja o que vai acontecer:
- Você vai se mostrar chocado com o fato de eu não acreditar em Deus ou achar que Jesus pode não ter existido. Vai me perguntar o que foi que me levou a rejeitar Jesus. Vai afirmar, mesmo sem me conhecer, que eu sou amargo, triste e tenho muita revolta no coração.
- Eu vou apresentar meus argumentos. Vou explicar que eu não posso rejeitar uma coisa em que eu não acredito, que não sou amargo nem revoltado.
- Em lugar de me contestar com idéias, você vai despejar citações bíblicas em cima de mim, embora já devesse saber que eu não acredito em que a Bíblia seja inspirada por nenhum deus e que você conseguiria o mesmo resultado citando o Alcorão ou os Vedas, ou seja, nenhum. É claro, se eu me enganar ao citar a Bíblia, você pode me corrigir, mas nunca argumentar que sua religião é a verdadeira “porque está na Bíblia”. Você tem que provar muitas outras coisas antes disto.
- Eu vou lhe responder citando outras passagens que dizem o contrário daquelas que você enviou. Você responderá que essas que eu mandei são casos particulares. Só se aplicam a uma determinada pessoa, a um determinado caso ou só eram válidas naquela época.
- Eu vou lhe mostrar que a Bíblia está cheia de besteiras e contradições. Você vai responder que eu entendi tudo errado. Quando Jesus disse isto, na verdade ele queria dizer aquilo e assim por diante, mas você não vai conseguir explicar por que a sua interpretação, e não a minha, é que está certa.
- Talvez eu consiga convencê-lo de que há coisas estúpidas e inaceitáveis na Bíblia, mas você vai dizer que é preciso considerar um tal de “contexto”, que o importante é perceber uma suposta “mensagem” que Deus quis transmitir, que nós não temos como entender as razões de Deus e devemos aceitar o que ele faz sem discutir.
- Você vai falar de milagres, de curas inexplicáveis, vai tentar me convencer de que Deus criou o universo em 6 dias e que a evolução é uma mentira. Vai me enviar um monte de textos ridículos tentando provar suas afirmações e vai ficar revoltado quando eu rebater tudo, ponto por ponto.
- Talvez você até admita que religiões só causam problemas – mas alegará que você não segue nenhuma religião, nenhuma denominação. Você dirá que segue as palavras de Jesus, não as religiões criadas pelos homens.
- Quando a coisa se complicar para o seu lado, você vai começar a responder como se nem tivesse lido direito o que eu escrevi. Em alguns casos, vai até distorcer minhas palavras. Eu sei que você não estará fazendo isto de má fé. É a sua cabeça que se recusa a examinar conceitos que contrariam os dogmas que enfiaram nela. Minhas palavras lhe parecerão tão absurdas, tão blasfemas, que você nem mesmo conseguirá pensar nelas, quanto mais argumentar. E você despejará mais citações bíblicas que não significam nada.
- Mais cedo ou mais tarde, uma ou mais das opções abaixo acontecerá:
- Você dirá que sabe que é verdade porque Jesus lhe falou pessoalmente.
- Você passará a responder a apenas alguns itens das minhas mensagens, alegando que está sem tempo.
- Você, em vez de argumentar, apenas gritará que eu vou para o inferno.
- Você, sem maiores explicações, não me responderá mais.
Entenda que eu não espero que você abandone suas crendices. A desconversão tem que vir de dentro. E é um processo muito demorado, que só acontece a alguns poucos, sem que a pessoa, em nenhum momento, tenha planejado se desconverter. Meu objetivo é que você aceite que o seu ponto de vista não é óbvio para os outros. Que você aceite que, se os ateus não “sentem” o que você sente e se o seu deus não “fala” com eles, então eles têm razão em não acreditar. E nem por isto são monstros, são depravados, são revoltados. Ateus são como você: têm sonhos, têm esperanças, têm objetivos na vida. Querem se formar, arranjar um emprego, seguir uma carreira, casar-se, criar os filhos, ter netos.